quinta-feira, 26 de junho de 2014

A funcionalidade do discurso de ridicularização para os neo ateus



Tomando como premissa a conclusão do neo ateísmo ser um movimento político, podemos, enfim, mapear a origem dos estratagemas de ridicularização na argumentação neo ateísta.
Consideremos, por início, esse tipo de iniciativa política como o ato de tornar os religiosos uma classe de pessoas alheias à participação nos círculos do poder, reduzindo ao longo do tempo sua influência. O objetivo final seria a retirada progressiva dos direitos da classe, e, em cenários de conflito ou necessidade, o extermínio.
opinião de uma classe é considerada de menor valor em relação à opinião de outras classes, após uma camada de reformulação do senso comum [ver "A Estratégia Gramsciana" para maiores detalhes].
Notem bem que eu não divido as pessoas em classes. Eu não acho que um ateu e um religioso deveriam estar em uma classe diferente da outra, mas a partir do momento em que politicamente um grupo executa a divisão, ela virtualmente passa a existir. Por exemplo, a partir do momento em que os comunistas definiram que existia a classe proletária de um lado e do outro a classe burguesa (junto com os pequenos burgueses), mesmo que estes últimos rejeitassem a existência desta classe, isso não adiantaria muito, pois se um dos lados já considera alguém ou um grupo como o seu inimigo, aquele que não se considera como oponente ainda assim SERÁ AFETADO pela inimizade do outro. Tudo bem que lutemos para eliminar o conceito de luta de classes, que é irracional em si, mas, enquanto os comunistas continuarem achando que o conflito existe, não dá para fugir do fato de existir um conflito entre grupos de pessoas.
Da mesma forma, mesmo que eu não me considere em classe diferente em relação a um ateu tradicional, o neo ateu já SE CONSIDERA em classe diferente em relação aos teístas como um todo. Portanto, se eu ignorar a existência virtual dessa classe os efeitos serão ainda piores. No caso da negação, a ignorância poderá me condenar aos efeitos e nem sequer me permitirá que eu me defenda, pois, sem identificar o grupo de onde os ataques surgem, não há como sequer eu executar atos de precaução, contenção e revide. No caso da aceitação ao menos temporária dessa divisão virtual, a compreensão dela facilitará com que qualquer ataque feito seja revidado de maneira mais clara e objetiva.
Sendo que o movimento interessado (o movimento anti-religião, dentro do qual o neo ateísmo é o carro-chefe) tem grande uso para os estratagemas de ridicularização, que constituem grande parte de seu discurso, é preciso entender como tal tipo de iniciativa é funcional para os objetivos anti-religiosos? Por que, dentre os estratagemas neo ateus, os de ridicularização estão entre os mais usados? Já que, se é uma alegação de alguns neo ateus que estes lutam contra o “preconceito” sofrido pelos ateus, não faz sentido atacar os religiosos pela ridicularização de suas crenças.
Eu já havia abordado algo semelhante no início deste blog, mas é bom eu ressaltar novamente. Imaginem um grupo de defesa do respeito aos homossexuais. É possível que na agenda deles esteja a diminuição de supostos atos de preconceitos contra os homossexuais. Mas, se a maioria das ações deste hipotético grupo forem em direção ao escárnio dos heterossexuais (por exemplo, a ridicularização do casamento, da gravidez feminina, etc.), já podemos de imediato suspeitar da alegação de que o interesse do grupo realmente seja diminuir o preconceito contra eles. O motivo para suspeitar da validade das intenções alegadas é que a ação executada não combina com a intenção alegada. Ora, se a busca realmente fosse para eliminar o preconceito alegadamente sofrido, então a via seria do diálogo, buscando obter a simpatia do outro, e, em contrapartida, oferecendo isso de volta. Mas se as ações são focadas unicamente em ataque, daí a intenção provavelmente não é o término do suposto preconceito sofrido, mas sim outro item NÃO REVELADO à primeira vista. Logo, neste caso teríamos que buscar pelos reais motivos. E, partindo desse princípio, da mesma forma já podemos descartar todas as iniciativas de ridicularização dos neo ateus contra os religiosos como se fossem uma ação para diminuir preconceito supostamente sofrido por ateus. Assim, temos que encontrar o real motivo.
Vejamos: temos grupos de esquerda (liberais, inspirados pelo iluminismo radical, além dos marxistas) interessados em retirar como um todo a influência da religião como na sociedade. Uma forma de fazer isso é desrespeitando as pessoas da classe religiosa unicamente pelo fato que as distingue da classe anti-religiosa. Portanto, o instrumento de ridicularização escolhido é a crença em si.
Darei um exemplo que já citei anteriormente. O de um sujeito hipotético que certo dia resolveu discriminar os teóricos do Big Bang. Uma forma de atacá-los pode ser executando a simulação de falso entendimento a respeito das crenças deles. Imagine se o ovo cósmico, tratado na teoria do Big Bang, fosse reduzido à crença em uma galinha cósmica que tivesse botado um ovo. Obviamente que essa não é a forma pela qual o físico visualiza o Big Bang, mas em uma campanha de ódio, não importa aquilo que o outro compreende, mas sim a interpretação mais odiosa possível. Esta é a interpretação que será atacada.
Tecnicamente, é exatamente o que acontece quando Bill Maher e Richard Dawkins resolveram ridicularizar crenças religiosas. Não eram as crenças religiosas que eles estavam atacando, porém eles faziam interpretações odiosas de crenças religiosas para então atacar essas interpretações, para daí fingir que tais interpretações REPRESENTAVAM a religião. Aliás, Dawkins até cometeu um ato falho ao dizer que Francis Collins talvez não fosse tão “brilhante” como cientista… por causa de suas crenças religiosas. Quer dizer, já não dá para esconder que o ataque é aos religiosos, mais do que às crenças religiosas.
Por causa desse truque, muitos ainda acreditam que os neo ateus são críticos da religião, o que em nada confere com a realidade. Na verdade, os neo ateus são inimigos dos religiosos e agem politicamente contra eles, e, em sua trajetória, criam simulações de falso entendimento a respeito da religião, para então fingir que as crenças do oponente são ridículas. Ora, se em nenhum momento eles se interessam pelas crenças dos oponentes, mas apenas em versões espantalho das mesmas, temos mais um motivo para entender o neo ateísmo apenas como a execução de uma agenda política.
Resumindo esse item da agenda neo ateísta: eles precisam sair em campo e obter, atuando de forma orgânica, a diminuição do respeito que a sociedade em geral possui pelas opiniões dos religiosos em qualquer assunto da vida pública. Para isso, é preciso tirar a credibilidade dos religiosos. Uma das formas de se chegar a isso é através da simulação de falso entendimento das crenças religiosas, maquiando-as para parecerem ridículas, e aí, em cima desta versão maquiada, serão feitos os ataques. A mensuração da eficiência desta iniciativa será feita através da perda de credibilidade identificada em público em relação aos religiosos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Necessidade do Magistério e da Tradição da Igreja


A Igreja Católica, desde os tempos apostólicos ensina que além da Sagrada Escritura, também é necessário para a formação doutrinal e moral da Igreja, a Sagrada Tradição (compreendendo aí os ensinamentos dos apóstolos e dos primeiros cristãos) e o Sagrado Magistério ( compreendendo o que os Concílios, o Bispo de Roma em particular, e em comunhão com ele todos os Bispos definem e ensinam como verdades de fé e moral ). 
Tal tríade abençoada ( Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e Sagrado Magistério) foram e são os responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção de toda a doutrina católica nestes vinte séculos de história cristã.
O Protestantismo nega tanto a Tradição quanto o Magistério legitimamente instituído por Jesus Cristo. Para eles, a única regra é a Sola Scriptura (ou seja somente a Bíblia e nada mais do que ela é regra de fé e de moral) interpretada livremente por qualquer pessoa ( método do livre exame ). Eis Martinho Lutero a dize-lo sem rodeios: "a todos os cristãos e a cada um em particular pertence conhecer e julgar a doutrina. Anátema a quem lhe tocar um fio deste direito" ( Conforme D. M. Luthers, Werke, Kritische Gesamtausgabe. Weimar, X. 2 Abt., p. 217, 1883 ss). Como se dissesse a cada um de seus seguidores: Eia pois, valoroso cristão! Tu és mestre de ti mesmo. Despreza tudo o que os primeiros cristãos, os Bispos e os Concílios definiram como verdade. Toma tu a bíblia, senta em tua saleta e defina tu mesmo o teu cristianismo!
Procuraremos demonstrar - Se Deus o consentir - que ao abandonar tanto a Sagrada Tradição quanto o Sagrado Magistério, o protestantismo provocou inadvertidamente sua própria dissolução doutrinária e orgânica. E hoje, infelizmente, sob o elástico nome de "protestantismo" se abrigam milhares e milhares de seitas doutrinariamente e disciplinadamente discordantes entre si. Causando um flagrante escândalo à causa ecumênica e ao desejo expresso de Jesus Cristo: " Para que todos sejam um (...) e o mundo creia que tu me enviaste" ( Jo 17, 20-21).
Com efeito, sabemos, a própria Bíblia não caiu pronta dos céus. Quem definiu que cada um dos livros que compõem a Sagrada Escritura, era de inspiração Divina foi o Espirito Santo agindo através da Tradição e do Magistério Católico. Isto são fatos históricos! Quem definiu o cânon completo, tanto do antigo quanto do novo testamento, foi o Espirito Santo através da Tradição e do Magistério. Quem definiu que o Novo Testamento e o Velho fosse enfeixado em um único volume dando portanto igual valor entre os dois testamentos foi a Tradição e o Magistério. Do que viveu a Igreja católica primitiva, durante os primeiros anos de pregação? Quando o Novo testamento ainda não havia sido escrito? Sobreviveu pela Tradição e pelo Magistério.
A própria Bíblia dá testemunho interno da necessidade de uma Tradição e de um Magistério vivo, para interpretá-la e ensiná-la. Transcrevo sobre isto, o magnífico comentário de Pe. Leonel Franca: "( a própria Bíblia) inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência das Escrituras, que segundo afirma São João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador (Jo 21,25). Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis, que ouvissem aos que Ele mandara pregar: quem vos ouve, a mim ouve; se alguém não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente a minha Igreja: se alguém não vos receber nem ouvir vossas palavras, saindo da casa ou da cidade sacudi até o pó dos sapatos; Pai oro não só por estes (Apóstolos) mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias, até a consumação dos séculos, para que os apóstolos vivendo moralmente em seus sucessores (os bispos ) continuassem até o final dos tempos a ensinar sempre tudo o que ele nos mandou. Eis meus caros leitores, o que diz a Bíblia" ( Franca, P. Leonel, I.R.C., 1958, pg.216-7).
Quando se fala de Magistério, evidentemente se fala do magistério legítimo, constituído por Jesus Cristo, o qual prometeu assistência especial e infalível até o final dos tempos: "Recebei o Espírito Santo (...) Eu estarei convosco até o final do tempos". Hoje, qualquer papalvo se atribui a si mesmo o título de "bispo" e sai por aí a fundar seitas e pregar doutrinas. Evidentemente este não é um magistério legítimo. O indivíduo que a si mesmo se premia com o título de "bispo", nada mais é que um mentiroso sacrílego.
Os próprios apóstolos ensinaram à exaustão a respeito da necessidade da Sagrada tradição e do Magistério legitimamente constituído. Vejamos S. João em suas últimas duas epístolas dizer expressamente que não quis confiar tudo por escrito, mas havia outras coisas que comunicaria à viva voz ( II Jo., 12 ; III Jo, 14). O apóstolo São Paulo, inculca fortemente a necessidade de uma tradição e um magistério vivo: "Estais firmes, irmãos e conservai as tradiçõesque aprendestes ou de viva voz..." ( II Tes 2,15 ); "que vos aparteis de todos os que andam em desordens e nãosegundo a tradição que receberam de nós" (II Tes 3,6); "O que de mim ouvistes por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros" (II Tm 2,2). A Igreja fundada por Cristo, portanto, seria ela "a coluna e o firmamento da verdade" ( I Tm 15). A Igreja fundada por Cristo portanto é maior que a Sagrada Escritura. Pois a Igreja é quem a escreveu, a definiu, a interpreta e a ensina. Os primeiros cristãos seguindo os ensinamentos dos apóstolos e já de posse da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério, nem pensam ser a Bíblia a única regra de fé. Aqui, por falta de espaço, vamos respigar apenas algumas citações da vasta seara dos testemunhos primitivos: "Advertia, antes de tudo, as igrejas das diversas cidades, evitassem, sobre todas as coisas, as heresias que começavam então a se alastrar e exortava-as a se aterem tenazmente à tradição dos apóstolos" ( Eusébio resumindo o ensino de S. Inácio de Antioquia, martirizado no ano 107 DC cf. Euséb., Hist. Eccles., III, 36 / MG, 20, 287); "Antes exortei-vos a vos conservardes unânimes na doutrina de Deus, pois Jesus Cristo nossa vida inseparável, é a doutrina do Pai, como a doutrina de Jesus Cristo são os bispos constituídos nas diversas regiões da terra" ( clara alusão ao Sagrado Magistério) ( S. Inácio, + 107 DC in Ad Ephesios, 3-4) ; "Sob Clemente, havendo nascido forte discórdia entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma escreveu-lhes uma carta enérgica, exortando-os à paz, reparando-lhes a fé, e anunciando-lhes a tradição que havia pouco tinham recebido dos apóstolos" ( S. Irineu, martirizado em 202 DC in Contra as Heresias III, c.3,n.3) ; "Aí está claro, a quantos querem ver a verdade, a tradição dos apóstolos, manifesta em toda a Igreja disseminada pelo mundo inteiro..."( S. Irineu mártir in contra as heresias III, 3, 1) ; "Não devemos buscar nos outros a verdade que é fácil receber da Igreja, pois os apóstolos a mãos cheias, versaram nela, como em riquíssimo depósito, toda a verdade... Este é o caminho da vida" (Idem, In Contra as heresias III, 4, 1); "E se os apóstolos não nos houvessem deixado as Escrituras, não cumpria seguir a ordem da Tradição por eles ensinada aos a quem confiavam à sua Igreja?" ( Idem, In contra as heresias III, 4,1) ; "De nada vale as discussões das Escrituras. A heresia não aceita alguns de seus livros, e se os aceita, corrompe-lhes a integridade, adulterando-os com interpolações e mutilações ao sabor de suas idéias, e se, algumas vezes admitem a Escritura inteira, pervertem-lhe o sentido com interpretações fantásticas..." ( Tertuliano séc III In De Praescriptionibus., c. 19 / ML, II,31). Na mesma obra assevera que onde estiver a verdadeira Igreja, "aí se achará a verdade das Escrituras, da sua interpretação e de todas as tradições cristãs" ( Idem, De Praescript., c. 19 ML, II, 31).
Jesus Cristo, instituiu para sua Única Igreja, um Magistério verdadeiro, pois disse à Pedro: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus..." ( Mt 16, 18-19), e em outro lugar "Eu estarei convosco até o final dos tempos". Para os católicos, se Jesus prometeu ficar conosco até o final dos tempos ele irá cumprir literalmente esta promessa. Se ele disse que a sua Igreja iria se manter firme por todo o sempre porque as portas do inferno não iriam prevalecer, nós cremos que ele está cumprindo concretamente esta promessa.
Pois não é exatamente isto que constatamos na Igreja Católica? Dois mil anos de existência ininterrupta. E que constância doutrinária e moral admirável! Quantas perseguições e vicissitudes e no entanto "as portas do inferno não prevaleceram". Parte desta unidade e estabilidade maravilhosa devemos certamente à instituição da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério por Cristo e pelos apóstolos.
O protestantismo negando tanto a Tradição quanto o Magistério sofre desde os seus primórdios uma desintegração doutrinária assombrosa. Onde Cristo fundou a Igreja Católica sobre a Rocha, Lutero e Cia fundaram a Igreja Evangélica sobre a areia movediça da sola scriptura e do livre exame. E logo nas primeiras ventanias, pôs-se a casa dos reformadores a desabar fragorosamente: tábuas lançadas aqui e ali, telha lá e acolá, junturas e cacos em todas as direções.
As divisões e subdivisões do Protestantismo desafiam hoje a paciência dos mais abnegados dos estatísticos.

Vejamos como no princípio deste século, o Reverendíssimo Pe. Leonel Franca já chamava a atenção para este fato, descrevendo lucidamente o processo de desagregação doutrinária do protestantismo, baseado no método da sola scriptura e do livre exame: "Na nova seita (protestantismo) não há autoridade, não há unidade, não há magistério de fé. Cada sectário recebe um livro que o livreiro lhe diz ser inspirado e ele devotamente o crê sem o poder demonstrar; lê-o, entende-o como pode, enuncia um símbolo, formula uma moral e a toda esta mais ou menos indigesta elaboração individual chama cristianismo evangélico. O vizinho repete na mesma ordem as mesmas operações e chega a conclusões dogmáticas e morais diametralmente opostas. Não importa; são irmãos, são protestantes evangélicos, são cristãos, partiram ambos da Bíblia, ambos forjaram com o mesmo esforço o seu cristianismo" ( In I.R.C. Pg. 212 , 7ª ed.).
Vejamos alguns exemplos práticos: um fiel evangélico quer mudar de seita? Precisa-se rebatizar? Umas igrejas dizem sim, outras não. Umas admitem o batismo de crianças, outras só de adultos, umas admitem a aspersão, infusão e imersão. Aquela outra só imersão, e mesmo há grupelho que só admite batismo em água corrente e sem cloro! Aqui e ali as fórmulas de batismo são tão variadas como as cores do arco-íris. Quer o sincero evangélico participar da Santa Ceia? Há seitas que consideram o pão apenas pão (pentecostais) outras que o pão é realmente o corpo de Cristo (Luteranos, Episcopais e outros). Uns a praticam com pão ázimo, outras com pão comum, aqui com vinho, lá com vinho e água, acolá com suco de uva. A Santa Ceia pode ser praticada diariamente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente, anualmente ou não ser praticada nunca. Trata-se de ministérios ordenados? Esta seita constitui Bispos, presbíteros e diáconos. Àquela só presbíteros e pastores, ali pastores e anciãos, lá Bispos e anciãos, acolá presbíteros e diáconos, outras não admitem ministro nenhum. Umas igrejas ordenam mulheres, outras não. E por aí, atiram os evangélicos em todas as solfas quando o assunto é ministério ordenado. Após a morte, o que espera o cristão ? Pode um crente questionar seu pastor sobre isto? E as respostas colhidas entre as denominações seria tão rica e variada quanto a fauna e a flora. Há Pastor que prega que todos estarão inconscientes até a vinda de Cristo quando serão julgados; outros pregam o "arrebatamento" sem julgamento; outros, uma vida bem-aventurada aqui mesmo na terra; aqueles lá doutrinam que após a morte já vem o céu e o inferno; no outro quarteirão, se ensina que o inferno é temporário; opinam alguns que ele não existe; e tantas são as doutrinas sobre os novíssimos quanto os pastores que as pregam. Está cansado o fiel da esposa da sua juventude? Não tem importância, sempre encontrará uma seita a lhe abrir risonhamente as portas para um novo matrimônio. E de vez em quando não aparece um maluco aqui e ali aprovando a poligamia? Lutero mesmo admitiu tal possibilidade: "Confesso, que não posso proibir tenha alguém muitas esposas; não repugna às Escrituras; não quisera porém ser o primeiro a introduzir este exemplo entre cristãos" (Luthers M.., Briefe, Sendschreiben (...) De Wette, Berlin, 1825-1828, II. 259 ). Não há uma pesquisa nos Estados Unidos que demonstra que entre os critérios para um evangélico escolher sua nova igreja está o tamanho do estacionamento? Eis o que é hoje o protestantismo.
Vejamos neste passo a afirmação de Krogh Tonning famoso teólogo protestante norueguês, convertido ao catolicismo, que no século passado já afirmava: "Quem trará à nossa presença uma comunidade protestante que está de acordo sobre um corpo de doutrina bem determinado ? Portanto uma confusão (é a regra ) mesmo dentre as matérias mais essenciais" ( Le protest. Contemp., Ruine constitutionalle, p. 43 In I.R.C., Franca, L., pg 255. 7ª ed, 1953)
Mas o próprio Lutero que saiu-se no mundo com esta novidade da sola scriptura viveu o suficiente para testemunhar e confessar os malefícios que estas doutrinas iriam causar pelos séculos afora: "Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças" ( Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547 ; De Wett III, 6l ). Um outro trecho selecionado, prova que o Patriarca da Reforma tinha também de quando em quando uns momentos de bom senso: "Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm" ( Carta de Lutero à Zwinglio In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p. 289).
Gostaríamos de terminar por aqui para não sermos enfadonhos. Quando o Pai do Protestantismo, diante da dissolução das seitas, já há quinhentos anos atrás, confessa ao outro "reformador" que seria necessário receber de novo o Sagrado Magistério ( Concílios ) para manter a unidade, a regra do livre exame e da sola scriptura já está julgada por si mesma.

domingo, 15 de junho de 2014

A Doutrina da Santíssima Trindade nos Padres pré-nicenos


Com efeito, o tempo permitiu que a terminologia deste dogma central da fé cristã fosse se enriquecendo, para expressar de uma forma mais precisa aquilo que a Igreja sempre professou. Surge, assim, o termo "Trindade" como uma forma de definir o mistério de que existe um só Deus em três Pessoas distintas, as quais possuem a mesma natureza ou substância.
Porém, este enriquecimento não ocorreu sem custo nem glória; muitas heresias tiveram que ser combatidas e superadas pela Igreja ao longo da História (e muitas dessas heresias ressurgiram novamente nos tempos atuais).
1. HERESIAS CRISTOLÓGICAS E TRINITÁRIAS
Existem numerosas heresias cristológicas e trinitárias, de modo que tratar de todas seria deveras longo. Logo, nos focaremos principalmente nas duas maiores e que ressurgiram hoje sob outros nomes e fachadas.
a) Modalismo
Também conhecida como Monarquianismo, Sabelianismo ou Patripassianismo. Sustentava, nos séculos II e III, que em Deus havia uma só Pessoa e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram formas de se comunicarem com os homens ou de se manifestarem. Era uma tentativa de afirmar a unidade de Deus sem negar a divindade de Cristo nem a do Espírito Santo.
Hoje em dia há uma grande quantidade de denominações protestantes que aderiram a essa heresia. Um exemplo temos na Igreja Pentecostal Unida, a qual professa:
"A doutrina sobre a natureza de Deus se chama 'Unicidade'. Esta palavra significa 'Qualidade do Único'. Esta se encontra claramente nas Escrituras e afirma que existe apenas um só Deus, sem distinção de Pessoas e que em Jesus Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Doutrina da Igreja Pentecostal Unida da Espanha)[1].
b) Arianismo
Uma grande heresia que a Igreja enfrentou e que abalou a Igreja durante o século IV. Da mesma forma que o Modalismo, queria defender a unicidade de Deus, porém o fazia reduzindo Jesus Cristo a um ser criado. Para os arianos, Cristo não era Deus, mas uma criatura subordinada criada por Ele, de modo que houve um tempo em que o Pai existiu e Cristo não. Para eles, Cristo também não tinha a mesma natureza ou substância do Pai. Entre os diferentes expoentes do Arianismo ressurgido hoje, podemos citar os Testemunhas de Jeová; para ilustrar um pouco a sua doutrina, mencionaremos um extrato de uma de suas publicações:
"Somente Deus é o Todo-Poderoso, o Criador, separado e distinto de qualquer outra pessoa. Jesus - e isto se aplica ainda à existência que teve antes de vir a ser homem - é também separado e distinto, um ser criado subordinado a Deus" (Folheto "O que Diz a Bíblia sobre Deus e Jesus?").
2. O TESTEMUNHO DOS ESCRITORES ECLESIÁSTICOS E PADRES DA IGREJA ANTES DO CONCÍLIO DE NICÉIA
Existem fontes protestantes que afirmam que foi graças ao Concílio de Nicéia que foram assentadas as bases para a doutrina da Trindade:
"O Concílio de Nicéia assegurou que Cristo era da mesma substância de Deus, abrindo base para uma posterior teologia trinitária. Porém, não estabeleceu a Trindade, pois naquele Concílio não se disse que o espírito santo era a terceira pessoa de uma Divindade trina e una (...) Por muitos anos houve muita oposição, com base bíblica, ao desenvolvimento da idéia de que Jesus era Deus. Em um esforço para resolver a disputa, o imperador romano Constantino convocou todos os bispos para Nicéia (...) Que papel desempenhou no Concílio de Nicéia aquele imperador não-batizado? A Enciclopédia Britânica relata: 'O próprio Constantino presidiu e dirigiu ativamente as discussões e pessoalmente propôs (...) a fórmula decisiva que expressava a relação de Cristo com Deus no credo que o Concílio publicou, o qual diz que é 'consubstancial com o Pai'. (...) Pressionados pelo imperador, os bispos - com apenas duas exceções - assinaram o credo, ainda que muitos deles não estivessem inclinados a fazê-lo'" (Folheto "Como se Desenvolveu a Doutrina da Trindade?").
Nesse folheto, em resumo, aponta-se que - segundo os Testemunhas de Jeová - a doutrina trinitária seria produto de uma manobra política do imperador Constantino, que acabou obrigando os bispos a reconhecer que Cristo era Deus, quase que contra as suas vontades.
Nada melhor, então, que estudar o testemunho dos Padres anteriores ao Concílio de Nicéia, para que possamos indagar o quanto há de verdadeiro nessas afirmações e qual foi o real desenvolvimento da doutrina trinitária ao longo da História.
A DIDAQUÉ (OU: A DOUTRINA DOS DOZE APÓSTOLOS)
É considerado um dos mais antigos escritos cristãos não-canônicos, datado inclusive de tempo bem anterior a muitos escritos do Novo Testamento. Estudos que assinalam uma data de composição não posterior a 160 d.C. são recentes. É um excelente testemunho do pensamento da Igreja Primitiva e aqui o mencionamos por trazer um testemunho do uso da fórmula batismal trinitária usada pela Igreja Primitiva:
"Quanto ao batismo, procedam assim: depois de ditas todas essas coisas, batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Didaqué 7,1).[2]
O MARTÍRIO DE POLICARPO
É uma carta da Igreja de Esmirna à comunidade de Filomênio em que se narra o martírio de São Policarpo, discípulo direto do Apóstolo São João e bispo de Esmirna. É um escrito apostólico que faz uso de belas doxologias trinitárias, expressando muito bem e claramente o dogma trinitário:
"A Ele [Jesus Cristo] seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém".[3]
O PASTOR DE HERMAS
Classificado como um dos escritos dos Padres Apostólicos ainda que - como assinala Quasten - pertença ao grupo dos Apocalipses apócrifos. Contém as revelações feitas por duas figuras celestiais a Hermas:
"O Espírito Santo, que é preexistente, que criou todas as coisas, Deus o fez habitar no corpo de carne que Ele quis. Pois bem. Esta carne em que o Espírito Santo habitou serviu bem ao Espírito, caminhando em santidade e pureza, sem macular absolutamente nada o mesmo Espírito. Como [essa carne] tinha, pois, levado uma conduta excelente e pura, e tomado parte em todo trabalho do Espírito e cooperado com Ele em todo negócio, portando-se sempre forte e valorosamente, Deus a tornou partícipe juntamente com o Espírito Santo. Com efeito, a conduta desta carne agradou a Deus, por não ter se maculado sobre a terra enquanto teve consigo o Espírito Santo. Assim, pois, tomou por conselheiro a seu Filho e os anjos gloriosos para que esta carne, que tinha servido sem reprovação ao Espírito, alcançasse também algum lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço, porque toda a carne em que habitou o Espírito Santo, se encontrada pura e sem mancha, receberá sua recompensa" (5ª Parábola, 6,5-7).[4]
Com base neste texto, Quasten explica:
"Segundo esta passagem, parece que para Hermas a Trindade consiste em Deus Pai, em uma segunda Pessoa divina - o Espírito Santo - que ele identifica com o Filho de Deus e, finalmente, no Salvador, elevado para fazer parte de sua sociedade como prêmio por seus merecimentos. Em outras palavras, Hermas considera o Salvador como Filho adotivo de Deus, razão pela qual se refere à sua natureza humana".
SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA (110 D.C.)
Foi consagrado bispo da Antioquia pelas próprias mãos de São Pedro e São Paulo, segundo afirma São João Crisóstomo (embora as Constituições Apostólicas afirmem que Pedro consagrou Evódio e Paulo a Inácio). Eusébio de Cesaréia afirma (Hist. Ecles. 3,22) que [Inácio] sucedeu a Evódio (primeiro bispo de Antioquia) e em sua "Crônica" aponta o tempo de seu episcopado entre o 1º ano de Vespasiano (70 d.C.) e o 10º de Trajano (107 d.C.).
 
"Inácio, por sobrenome Téoforo [=portador de Deus], à abençoada em grandeza de Deus com plenitude; à predestinada desde antes dos séculos para servir para sempre, para glória duradoura e imutável, glória unida e eleita pela graça da verdadeira Paixão e por vontade de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja digna de toda bem-aventurança, que está em Éfeso, na Ásia, minha cordialíssima saudação em Jesus Cristo e na alegria imaculada" (Epístola aos Efésios 1).[5]
"Existe um médico, no entanto, que é carnal além de espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, filho de Maria e Filho de Deus, primeiro passível e depois impassível: Jesus Cristo, nosso Senhor" (Epístola aos Efésios 7,2).[6]
"A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi levado por Maria em seu seio conforme a dispensação de Deus, certamente da descendência de Davi, mas por obra do Espírito Santo. Ele nasceu e foi batizado a fim de purificar a água com a sua Paixão" (Epístola aos Efésios 18,2).[7]
"Inácio, por sobrenome Téoforo [=portador de Deus], à Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu único Filho; à que é amada e é iluminada por vontade Daquele que quis que todas as coisas existissem, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus" (Epístola aos Romanos 1).[8]
"Permitam que eu seja imitador da Paixão do meu Deus" (Epístola aos Romanos 4,3).
"Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem os tem feito sábios até tal ponto, pois percebi muito bem de quão mergulhados estais da fé imutável, como se estivésseis pregados, em carne e espírito, na cruz de Jesus Cristo" (Epístola aos Esmirniotas 1,1).[9]

Para Santo Inácio, Cristo está acima do tempo e é intemporal, o que é uma forma de dizer que existe desde toda a eternidade:
"Aguardai Aquele que está acima do tempo, o Intemporal; o Invisível, que por nós se tornou visível; o Impalpável, o Impassível, que por nós se fez passível; aquele que, por todos os modos, sofreu por nós" (Carta a Policarpo 3,2).[10]
ARISTIDES (SÉC. II)
Escritor eclesiástico sobre o qual Eusébio da Cesaréia, em sua História Eclesiástica (4,3,3), afirma que era "um varão fiel na profissão da nossa religião". Deixou uma apologia da fé, a qual tinha sido perdido, até que em 1878 os Mequitaristas de São Lázaro de Veneza publicaram um manuscrito do século X, correspondente ao fragmento armênio de uma apologia intitulada "Ao imperador Adriano César da parte do filósofo ateniense Aristides". Posteriormente, em 1889, o sábio norte-americano Rendel Harris descobriu uma tradução completa em siríaco desta apologia. Nesta obra, Aristides emprega a fórmula trinitária, mencionando as três Pessoas divinas:
"Este teve doze discípulos, os quais, após sua ascensão aos céus, percorreram as províncias do Império e ensinaram a grandeza de Cristo, de modo que um deles percorreu aqui mesmo, pregando a doutrina da verdade, pois conhecem o Deus criador e artífice do universo em seu Filho Unigênito e no Espírito Santo, não adorando nenhum outro Deus além deste" (Apologia 15,2).[11]
ATENÁGORAS DE ATENAS (SÉC. II)
Famoso apologeta cristão do século II. Atenágoras, mesmo sem empregar o termo "Trindade" é bastante explícito ao definí-la. Também rejeita o Subordinacionismo e a tendência que posteriormente seria adotado pelo Arianismo ao considerar Cristo como um ser criado, como se deduz do seguinte texto escrito por volta do ano 177 d.C.:
"E se pela eminência da vossa inteligência vos ocorre perguntar o que quer dizer 'Filho', vos direi brevemente: o Filho é o primeiro broto do Pai, não como ato, já que Deus, que é inteligência eterna, desde o princípio tinha em si mesmo o Verbo, sendo eternamente racional, mas procedendo de Deus quando todas as coisas materiais eram natureza sem forma e terra inerte, estando misturadas as mais grosseiras com as mais leves, para ser sobre elas idéia e operação" (Súplica em Favor dos Cristãos 10).[12]
Eis aqui a sua forma de explicar a Trindade:
"Assim, pois, suficientemente resta demonstrado que não somos ateus, pois admitimos um só Deus incriado e eterno, e invisível, impassível, incompreensível e imenso, apenas pela inteligência compreensível à razão... Quem, portanto, não se surpreenderá de ouvir chamar de 'ateus' aqueles que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que demonstram seu poder na unidade e sua distinção na ordem?" (Súplica em Favor dos Cristãos 10).[13]
TACIANO, O SÍRIO (SÉC. II)
Taciano foi discípulo de São Justino Mártir; dele conservamos um discurso contra os gregos, em que ataca o Politeísmo. Possuía uma caráter forte, que o levou a abandonar a Igreja e fundar sua própria seita (os Encratitas) - testemunho que nos dá Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica 4,18-19); entre outros - tal como Jerônimo, que o chama de "Patriarca dos Encratitas" (Epist. Ad Titum, prol. [PL 6,356]) - praticavam uma total abstinência de carnes e bebidas alcóolicas, classificavam o matrimônio como pecaminoso e substituíam, na celebração eucarística, o vinho pela água. Chegou até nós o discurso contra os gregos, obra em que [Taciano] ataca o Politeísmo:
"Porque não estamos loucos - ó helenos - nem pregamos loucuras quando anunciamos que Deus apareceu na forma humana. Vós que nos insultais, comparai os vossos mitos com as nossas narrações" (Discurso contra os Gregos 21).[14]
SÃO MELITÃO DE SARDES (SÉC. II)
Bispo de Sardes, na Lídia, proeminente e venerado escritor eclesiástico do século II. Em uma carta ao Papa Vítor (189-199), Polícrates de Éfeso o aponta entre os "grandes luzeiros (ou estrelas)" da Ásia que gozam do descanso eterno. De muitas de suas obras só nos restam fragmentos ou apenas o título, graças a Eusébio de Cesaréia e Anastácio Sinaíta. Após uma descoberta recente, em 1930, foi publicada sua Homilia sobre a Paixão, onde Melitão expõe uma Cristologia bastante lúcida em que o conceito da divindade e preexistência de Cristo dominam toda a sua teologia:
"Porque nascido como Filho, conduzido como cordeiro, sacrificado como ovelha, sepultado como homem, ressuscitou dos mortos como Deus, sendo por natureza Deus e homem. Ele é tudo: quando julga, é Lei; quando ensina, é Verbo; quando salva, é Graça; quando gera, é Pai; quando é gerado, é Filho; quando sofre, é ovelha sacrificial; quando é sepultado, é homem; quando ressucita, é Deus. Este é Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos" (Homilia sobre a Paixão 8-10).[15]
Afirma também a preexistência de Cristo:
"Este é o primogênito de Deus, que foi gerado antes da estrela da manhã, que fez levantar a luz, que fez brilhar o dia, que separou as trevas, que assentou a primeira base, que suspendeu a terra em seu lugar, que secou os abismos, que estendeu o firmamento, que pôs ordem no mundo" (Homilia sobre a Paixão 82).[16]
Nos fragmentos citados por Anastácio Sinaíta, aponta as duas naturezas de Cristo e de como é, assim, verdadeiro Deus e verdadeiro homem:
"Não é absolutamente necessário, ao tratar com pessoas inteligentes, aduzir que as ações de Cristo, após seu batismo, são provas de que sua alma e corpo e sua natureza humana era iguais às nossas, verdadeiras e não fantasmagóricas. As atividades de Cristo após seu batismo, especialmente os seus milagres, forneceram provas ao mundo da divindade oculta em sua carne. Sendo Deus e também homem perfeito, ele deu indicações positivas de suas duas naturezas: de sua divindade, pelos milagres durante os três anos que seguiram após seu batismo; e de sua humanidade, nos trinta anos anteriores ao seu batismo, durante o qual, em razão da sua condição segundo a carne, ele ocultara as características de sua divindade, ainda que fosse verdadeiro Deus existente antes das idades" (Fragmentos de Melitão em Anastácio Sinaíta; Guia 13).[17]
SANTO IRENEU (140-202 D.C.)
Bispo de Esmirna e mártir, teve contato com a Era Apostólica por ser discípulo de São Policarpo que, por sua vez, tinha sido discípulo do Apóstolo São João. Célebre por seu tratado "Contra as Heresias", em que combate as heresias de seu tempo, especialmente os gnósticos, expressa com clareza, nessa obra, a fé trinitária da Igreja em um só Deus Pai, um só Senhor Jesus Cristo e no Espírito Santo. Para o bispo, Jesus Cristo é para os cristãos "Senhor, Deus, Salvador e Rei". Particularmente importante é seu testemunho sobre como essa doutrina é pregada e professada por todas as Igrejas do orbe, como se tivessem uma só boca e um só coração. Este testemunho é bem anterior ao Concílio de Nicéia:
"A Igreja, estendida pelo orbe do universo até os confins da terra, recebeu dos Apóstolos e de seus discípulos a fé em um só Deus Pai soberano universal 'que fez os céus e a terra e o mar e tudo quanto neles existe'; e em um só Jesus Cristo Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas proclamou as economias e o advento, a geração por meio da Virgem, a Paixão, a ressurreição dentre os mortos e a ascensão aos céus do amado Jesus Cristo nosso Senhor; e seu [novo] advento dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e para ressuscitar toda carne do gênero humano, de forma que diante de Jesus Cristo, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, segundo o beneplácito do Pai invisível, 'todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos, e toda língua o confesse'. Ele julgará todos justamente: os 'espíritos do mal', os anjos que caíram, os homens apóstatas, ímpios, injustos e blasfemos, para enviá-los para o fogo eterno; e para dar como prêmio, aos justos e santos que observam os seus mandamentos e perseveram no seu amor, alguns desde o princípio, outros a partir de sua conversão, a vida incorruptível, rodeando-os da luz eterna.
Como dissemos antes, a Igreja recebeu esta pregação e esta fé, e estendida por toda terra, com cuidado a guarda, como se habitasse em uma só família. Conserva uma só fé, como se tivesse uma só alma e um só coração, e a prega, ensina e transmite com a mesma voz, como se não tivesse senão apenas uma só boca. Certamente, são diversas as línguas, segundo as diversas regiões; porém, a força da Tradição é uma e a mesma. As igrejas da Germânia não crêem de maneira diversa, nem transmitem outra doutrina diferenta da que pregam as da Ibéria ou a dos celtas, ou as do Oriente, como as do Egito ou Líbia, assim como, tampouco, das igrejas constituídas no centro do mundo. Assim como o sol, que é uma criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, assim também a luz, que é a pregação da verdade, brilha em todas as partes e ilumina todos os seres humanos que querem conhecer a verdade. E nem aquele que se sobressai por sua eloquência entre os chefes da Igreja prega coisas diferentes destas, pois nenhum discípulo está acima de seu Mestre, nem o mais débil na palavra recorta a Tradição; sendo uma e a mesma fé, nem o muito que pode explicar sobre ela aumenta, nem o menos a diminui" (Contra as Heresias 1,10,1-2).[18]
Ireneu interpreta que quando Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança", está falando ao Filho e ao Espírito Santo. Afirma que Cristo é gerado, porém ninguém conhece os mistérios desta geração, razão pela qual é em vão que os hereges gnósticos tentam explicá-la.
"Assim pois, se alguém nos pergunta: 'Como o Pai emitiu o Filho?', respondemos que esta produção, ou geração, ou pronúncia, ou parto, ou qualquer outro nome que se queira dar a esta origem, é inefável. Não a conhecem nem Valentim, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem os anjos, nem os poderes, nem as potestades, mas apenas o Pai que O gerou e o Filho que Dele nasceu. Sendo, pois, inefável esta geração, quem quer que se atreva a narrar as gerações e emanações não está em seu são juízo quando promete descrever o indescritível" (Contra as Heresias 2,28,6).
Mais claro ainda encontra-se no livro 3, quando volta a declarar que Cristo é Deus, Senhor, sempre Rei, Unigênito e Verbo encarnado:
"Que ninguém entre todos os filhos de Adão seja chamado Deus por si mesmo ou proclamado Senhor o demonstramos pelas Escrituras. E que apenas Ele [Jesus], entre todos os homens de seu tempo, seja proclamado Deus, Senhor, sempre Rei, Unigênito e Verbo encarnado, por todos os Profetas e Apóstolos e ainda pelo próprio Espírito, é algo que podem constatar todos aqueles que aceitam um mínimo de verdade" (Contra as Heresias 3,19,2).
Ensina que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem:
"As Escrituras não dariam todos estes testemunhos a respeito Dele se fosse apenas um homem semelhante a todos [nós]. Porém, como teve uma geração sobretudo iluminada do Pai Altíssimo e também por ter sido concebido da Virgem, as divinas Escrituras testemunham ambas as coisas sobre Ele: que é homem sem beleza e passível, que se sentou sobre o dorso de uma asna, que ingeriu fel e vinagre, que foi desprezado pelo povo e que desceu até a morte; porém, que é também Senhor Santo e Conselheiro admirável, formoso à vista, Deus forte, que vem sobre as nuvens como Juiz de todos. Isto é o que as Escrituras profetizam acerca Dele.
Enquanto homem, o era para ser tentado; enquanto Verbo, para ser glorificado. O Verbo repousou para que pudesse ser tentado, desonrado, crucificado e morto, habitando naquele Homem que vence e suporta [o sofrimento], que se comporta como homem de bem, ressuscita e é elevado ao céu. Este é o Filho de Deus, Senhor nosso, Verbo existente do Pai e filho do homem porque nasceu da Virgem Maria, que teve sua origem nos homens, pois ela mesma era um ser humano; teve gestação enquanto homem e assim chegou a ser filho do homem" (Contra as Heresias 3,19,2-3).
Opõe-se, com mais de dois séculos de antecedência, à heresia do Arianismo (que afirmava que houve um tempo em que o Filho não esteve com o Pai). Também com antecedência, rejeita o Modalismo, diferenciando as três Pessoas divinas:
"Que o Verbo, ou seja, o Filho, sempre esteve com o Pai, de múltiplas maneiras já o demonstramos; e também que sua Sabedoria, ou seja, o Espírito, estava com Ele antes da Criação" (Contra as Heresias 4,20,3).
No entanto, há autores que opinam que Ireneu não estava totalmente livre do Subordinacionismo, e que poderia ser considerado heterodoxo à luz da teologia posterior:
"Se, por exemplo, alguém procura o motivo pelo qual apenas o Pai conhece o dia e a hora, ainda que comunique tudo ao Filho, o próprio Senhor o disse (e ninguém pode inventar outro [motivo] sem risco [de se equivocar] porque apenas o Senhor é o Mestre da verdade). Ele nos disse que o Pai está sobre todas as coisas, pois declarou: 'O Pai é maior do que Eu' (João 14,28). O Senhor, portanto, apresentou o Pai como superior a todos em relação ao seu conhecimento, a fim de que nós, enquanto caminhamos por este mundo (1Coríntios 7,31), deixemos a Deus o saber mais profundo sobre tais questões; porque se pretendemos investigar a profundidade do Pai (Romanos 11,33), corremos o perigo de perguntar, inclusive, se existe outro Deus acima de Deus" (Contra as Heresias 2,28,8).
"O Pai sustenta ao mesmo tempo toda a sua criação e o seu Verbo; e o Verbo, que o Pai sustenta, concede a todos o Espírito segundo a vontade do Pai: a uns, na própria Criação, lhes dá [o espírito] da criação, que é criado; a outros, o da adoção, isto é, o que provém do Pai, que é obra de sua geração. Assim se revela como único o Deus e Pai que está acima de tudo, através de todas [as coisas] e em todas as coisas. O Pai está sobre todos os seres e é a cabeça de Cristo (1Coríntios 11,3); através de todas as coisas, age o Verbo, que é Cabeça da Igreja; e em todas as coisas porque o Espírito está em nós, o qual é água viva (João 7,38-39) que Deus outorga àqueles que crêem retamente Nele e O amam, sabendo que 'um só é o Pai que está sobre todas, por todas e em todas as coisas'" (Contra as Heresias 5,18,2).
CLEMENTE DE ALEXANDRIA (MEADOS DO SÉC. II - ANTERIOR A 215)
Nasceu por volta do ano 150, provavelmente em Atenas, de pais pagãos. Após se tornar cristão, viajou pelo sul da Itália, Síria e Palestina à procura de mestres cristãos, até que chegou em Alexandria. Os ensinamentos de Panteno (chefe da escola catequética de Alexandria, no Egito) fizeram com que fixasse residência ali. No ano 202, a perseguição de Sétimo Severo o obrigou a abandonar o Egito e a se refugiar na Capadócia, onde faleceu pouco antes de 215. Seu conhecimento dos escritos pagãos e da literatura cristã é notável. Segundo Quasten, em suas obras se encontram cerca de 360 citações dos clássicos, 1500 do Antigo Testamento e 2000 do Novo Testamento. Por isso, é considerado cronologicamente como o primeiro sábio cristão conhecedor profundo não apenas da Sagrada Escritura como também das obras cristãs anteriores a ele e, inclusive, obras da literatura profana. Em sua obra "O Protréptico" ou "Exortação aos Gregos", escreve:
"A Palavra, então, o Cristo, é a causa de nosso antigo princípio - porque Ele estava com Deus - de nosso bem-estar. E agora esta mesma Palavra apareceu como homem. Apenas Ele é Deus e Homem, e fonte de todas as coisas boas. É por Ele que nos ensina a viver bem e, então, somos mandados para a vida eterna (...) Ele é o cântico novo, a manifestação que agora nos foi feita, da Palavra que existiu no princípio e antes do princípio. O Salvador, que existiu antes, apareceu apenas posteriormente. Ele, que apareceu, está Nele que é, pela Palavra que estava com Deus, a Palavra pela qual todas as coisas foram feitas; apareceu como nosso Mestre e Ele, que nos concedeu a vida no princípio quando, como nosso Criador, Ele nos formou; agora que Ele apareceu como nosso Mestre, nos ensinou a viver bem de modo que, logo, como Deus, poderá nos dar abundância na vida eterna" (Exortação aos Gregos 1,7,1).[19]
Mais adiante, na mesma obra, continua aprofundando sua teologia do Logos, afirmando que a Palavra divina é "evidentemente verdadeiro Deus", acrescentando ainda que estava "no mesmo nível" do Pai, o que provaria que não tinha inclinações subordinacionistas:
"Desdenhado na sua aparência, porém, na verdade adorado, o Expiador, o Salvador (...), a Palavra divina, Ele que é absolutamente e evidentemente Deus verdadeiro, Ele que está no mesmo nível do Senhor do universo porque era seu Filho e a Palavra estava com Deus" (Exortação aos Gregos 10,110,1).[20]
Em "O Pedagogo" (uma obra em 3 livros, que é a continuação do "Protréptico"), explica:
"Meus filhos: nosso Instrutor é como seu Deus, o Pai, pois é Filho Dele: livre de pecado, livre de culpa e com a alma livre de Paixão. Deus em forma de homem, inoxidável; o ministro de seu Pai, a Palavra que é Deus; que está no Pai, que é a mão direita do Pai; e, com a forma de Deus, é Deus. Ele é para nós uma imagem irrepreensível..." (O Pedagogo 1,2).[21]
Em seu comentário sobre 1João, escreve:
"O Filho de Deus, sendo, por igualdade de substância, um com o Pai, é eterno e não-criado".
SÃO TEÓFILO DE ANTIOQUIA (SÉC. II)
Sexto bispo de Antioquia, como atesta Eusébio em sua História Eclesiástica 4,20. Se conservam 3 livros de sua autoria, escritos por volta do ano 180 d.C., intitulados "A Autólico". Assim como Tertuliano foi o primeiro a empregar o vocábulo latino "Trinitas", Teófilo foi o primeiro a usar o termo "Τριας" (=Trindade) para expressar a união das três Pessoas divinas em Deus:
"Os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria" (A Autólico 2,15).[22]
"Tendo, pois, Deus o seu Verbo imanente em suas próprias entranhas, o gerou com sua própria sabedoria, emitindo-o antes de todas as coisas. Ele teve este Verbo por ministro de sua criação e através Dele fez todas as coisas (...) Isto se chama 'princípio', pois é Príncipe e Senhor de todas as coisas por Ele criadas" (A Autólico 2,10).[23]
"Sim, Deus, o Pai do universo, é imenso e não se encontra limitado a um lugar, pois não há lugar para seu descanso. Mas seu Verbo, pelo qual fez todas as coisas, como potência e sabedoria sua que é, tomando a figura do Pai e Senhor do universo, este é que se apresentou no jardim sob a figura de Deus e que conversava com Adão. Com efeito, a própria divina Escritura nos ensina que Adão disse ter ouvido a sua voz; e essa voz que outra coisa seria senão o Verbo de Deus, que é também seu Filho? Filho não do modo como falam os poetas e mitógrafos - que os filhos dos deuses nascem pela união carnal - mas como a verdade explica que o Verbo de Deus está sempre imanente no coração de Deus. Porque antes de criar do nada, a Este tinha por conselheiro, como mente e pensamento Seu que era. E quando Deus quis fazer o que tinha deliberado, gerou a este Verbo proferido (προφορικ?ν) como primogênito de toda criação, não esvaziando-se de seu Verbo, mas gerando o Verbo e conversando sempre com Ele. Por isso, nos ensinam as Sagradas Escrituras e todos os inspirados pelo Espírito, dentre os quais João: 'No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus', dando a entender que no princípio estava apenas Deus e Nele seu Verbo; e logo diz: 'E o Verbo era Deus'" (A Autólico 2,22).[24]
TERTULIANO (160-220 D.C.)
Ainda que Tertuliano não seja considerado um "Padre da Igreja", mas um apologeta, tendo no final de sua vida aderido à heresia Montanista, foi muito lido antes de abandonar a Igreja Católica. Foi o primeiro a aplicar o termo latino "Trinitas" (Trindade) às três Pessoas divinas. Em "De Pudicitia" ("Da Modéstia"), escreve:
"Para a mesma Igreja é, propriamente e principalmente, o próprio Espírito, no qual está a Trindade de uma Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo" (Da Modéstia 21).[25]
Em "Adversas Praxean" ("Contra Praxéas"), oferece uma explicação ainda mais completa sobre a doutrina trinitária:
"No entanto, como sempre fizemos (e mais especialmente a partir do momento que fomos melhor instruídos pelo Paráclito, que conduz os homens à verdade), cremos que existe um só Deus, porém, sob a seguinte dispensação, ou ο?κονομ?α, como é denominada: que este único Deus tem também um Filho, sua Palavra, que procede Dele mesmo, por quem todas as coisas foram feitas e sem O qual nada foi feito. Cremos que Ele foi enviado pelo Pai à Virgem e dela nasceu, sendo Deus e homem, filho do homem e Filho de Deus, sendo chamado Jesus Cristo; cremos que Ele sofreu, morreu ferido, conforme as Escrituras, e, posteriormente, foi ressucitado pelo Pai e levado ao céu para sentar-se à direita do Pai; Ele virá para julgar os vivos e os mortos e enviou, também, a partir do céu do Pai, conforme a sua promessa, o Espírito Santo, o Paráclito, o santificador da fé daqueles que crêem no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Esta é a regra de fé que chegou até nós desde o início do Evangelho, inclusive antes todas as antigas heresias" (Contra Praxéas 2). [26]
No mesmo capítulo, um pouco mais adiante, escreve:
"A heresia, a qual supõe por si mesma possuir a pura verdade, pensando que não se pode crer que um só Deus de nenhum outro modo a não ser dizendo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são a mesma Pessoa, como se neste modo um também não fosse todos, em que todos são um, por unidade de substância, enquanto o mistério da dispensação é, todavia, guardado, o qual distribui a Unidade na Trindade, colocando em sua ordem as três Pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo; três, mas não em condição e sim em grau, não em substância e sim em forma, não em poder e sim em aspecto" (Contra Praxéas 2).
Este texto é particularmente importante porque explica a concepção que Tertuliano possui da Trindade: 3 Pessoas, porém não 3 Naturezas; não diferentes quanto ao poder, mas quanto ao aspecto. Isto é confirmado também no capítulo 4 da mesma obra, onde volta a afirmar que o Filho é "da substância do Pai": "Filium non aliunde deduco, sed de substantia Patris"; e o Espírito é "do Pai pelo Filho": "Spiritum non aliunde deduco quam a Patre per Filium":
"Se a pluralidade na Trindade te escandaliza, como se não estivesse ligada na simplicidade da união, te pergunto: como é possível que um ser, que é pura e absolutamente um e singular, fale no plural: 'Façamos o homem à nossa imagem e semelhança'? Não deveria, antes, ter dito: 'Eu faço o homem à minha imagem e semelhança', já que é um Ser único e singular? No entanto, na passagem que segue, lemos: 'Eis que o homem foi feito como um de nós'. Ou Deus nos engana ou goza de nós ao falar no plural, já que Ele é único e singular. Ou será que se dirigia aos anjos, como interpretam os judeus, já que não reconhecem o Filho? Ou será que Ele, sendo Pai, Filho e Espírito, falava no plural, considerando-se múltiplo? Certamente, a razão é porque tinha ao seu lado uma segunda Pessoa, seu Filho e Verbo, e uma terceira Pessoa, o Espírito no Verbo. Por isso, empregou deliberadamente o plural: 'Façamos - nossa imagem - um de nós'. Com efeito, com quem criava o homem? À semelhança de quem o criava? Falava, por um lado, com o Filho, que deveria um dia se revestir da carne humana; por outro lado, [falava] com o Espírito, que devia um dia santificar o homem, como se falasse com outros tantos ministros e testemunhas" (Contra Praxéas 12).
Continua, posteriormente, no mesmo capítulo:
"Agora se Ele também é Deus, conforme João, [que diz] 'E a Palavra era Deus', então você tem dois seres: um que ordena que as coisas sejam feitas e outro que executa a ordem e cria. Nesse sentido, no entanto, você deve entender que Ele é outro, como já expliquei, quanto à personalidade, não quanto a substância; nesse modo de distinção, não de divisão. Assim devo manter que há uma só substância em três [Pessoas] coerentes e inseparáveis" (Contra Praxéas 12).
No texto anterior, Tertuliano se serve do termo "Pessoa" para explicar que a Palavra (Logos) é distinta do Pai no "sentido de Pessoa, não de substância; para distinção, não para divisão", o que aplica também para o Espírito Santo, a quem chama "a terceira Pessoa". Porém, ainda que Tertuliano tenha contribuído para a criação de uma terminologia precisa para a doutrina trinitária, não se viu livre totalmente do Subordinacionismo, a ponto que chegou a interpretar que o Filho não era eterno (um dos erros do Arianismo):
"Foi então que o Verbo recebeu sua manifestação e complemento, isto é, o som e a voz, quando Deus disse: 'Faça-se a luz'. Eis aí o nascimento perfeito do Verbo, quando procedeu de Deus. Primeiro foi produzido por Ele no pensamento, sob o nome de Sabedoria: 'Deus me criou no início de seus caminhos' (Provérbios 8,22). Logo, foi gerado com vistas à ação: 'Quando fiz os céus, estava próximo a Ele' (Provérbios 8,27). Por conseqüência, fazendo Pai aquele de quem o Filho procedeu, veio a se tornar primogênito (porque foi gerado antes de todas as coisas) e Filho único (porque só Ele foi gerado por Deus)" (Contra Praxéas 7).
ORÍGENES (185-254 D.C.)
Orígenes foi um proeminente escritor eclesiástico, teólogo e comentarista bíblico. Viveu em Alexandria até o ano 231, passando seus últimos 20 anos de vida em Cesaréia Marítima (Palestina) ou viajando pelo Império Romano. Foi o maior mestre da doutrina cristã de sua época e exerceu uma extraordinária influência como intérprete bíblico. Cabe ressaltar que alguns de seus ensinamentos não foram ortodoxos. Muito interessante para o tema que abordamos foi o debate de Orígenes com Heráclides, descoberto em alguns papiros encontrados em Toura, localidade próxima do Cairo, em 1941. Ali se apresenta um debate completo que teve origem nas opiniões de Heráclides sobre a doutrina trinitária, que preocupavam seus irmãos no episcopado. Estes chamam Orígenes para discutir a questão. Este debate foi realizado na presença do povo e dos bispos por volta do ano 245. A este respeito, comenta Quasten:
"Heráclides não gostava da fórmula de Orígenes 'dois Deuses' (δ?ο θεο?) como a única maneira para se expressar claramente a distinção entre o Pai e o Filho. Implicava em perigo demasiadamente grave de politeísmo. No debate, Orígenes faz esta observação: 'Já que nossos irmãos se escandalizam ao ouvir que existem dois deuses, este assunto merece ser tratado com delicadeza'. Recorre a seguir à Bíblia para demonstrar em qual sentido os dois podem ser um. Adão e Eva eram dois, no entanto, formavam uma só carne (Gênese 2,24). Cita depois São Paulo, o qual, falando da união do homem justo com Deus, diz: 'Aquele que se achega ao Senhor se torna um espírito com Ele' (1Coríntios 6,17). Finalmente, invoca como testemunho o próprio Cristo, porque disse: 'Eu e meu Pai somos um'. No primeiro exemplo, havia unidade de 'carne'; no segundo, 'de espírito'; no terceiro, de 'divindade'. Observa Orígenes: 'Nosso Senhor e Salvador, em sua relação com o Pai e Deus do universo, não é uma só carne, nem apenas um só espírito, mas algo muito mais elevado que a carne e o espírito: um só Deus".
Assim, Orígenes defende que o Pai e o Filho são divinos, contra [as heresias do] Monarquianismo e Modalismo. Termina o interrogatório de Orígenes a Heráclides com o seguinte acordo:
"Orígenes disse: O Pai é Deus?
Respondeu Heráclides: Sim.
Orígenes disse: O Filho é distinto do Pai?
Respondeu Heráclides: Como poderia ser simultaneamente Filho e Pai?
Orígenes disse: O Filho, que é distinto do Pai, é também Deus?
Respondeu Heráclides: Também Ele é Deus.
Orígenes disse: Deste modo, os dois Deuses formam um só?
Respondeu Heráclides: Sim.
Orígenes disse: Por conseguinte, afirmamos que existem dois Deuses?
Respondeu Heráclides: Sim, porém o poder é único (δ?ναμη μ?α εστ?ν)".
Definição esta bem anterior a Nicéia e que, ainda sem precisar a terminologia, serve para expressar o próprio sentir. Assim, com este acordo diante do povo e dos bispos, Cristo foi proclamado como Deus, embora sendo uma Pessoa distinta do Pai. Defendia-se desta forma a individualidade das Pessoas divinas contra o Modalismo e se esclareciam os temores de que, ao se reconhecer Cristo e o Pai como Deus, caía-se no Politeísmo.
Orígenes emprega freqüentemente o termo "Trindade" (In Ioh. 10,39,270; 6,33,166; In Ies. Hom. 1,4,1) e afirma que o Filho procede do Pai. E visto que Deus é eterno, logo este ato de geração também é eterno, de modo que o Filho não teve princípio e não existiu um tempo em que Ele não tenha existido (opõe-se assim, com antecedência, à heresia do Arianismo, que afirmaria algum tempo depois justamente o oposto, isto é, que houve um tempo em que o Filho não existia (De princ. l,2,9s; 2; 4,4,1; In Rom. 1,5)):
"Não se pode conceber luz sem resplendor. E se isto é verdade, nunca houve um tempo em que o Filho não fosse Filho. No entanto, não será - como dissemos sobre a luz eterna - sem nascimento (pareceria que introduzimos dois princípios de luz), mas que é, por assim dizer, resplendor da luz ingênita, tendo esta mesma luz como princípio e fonte, verdadeiramente nascida dela. Não obstante, não houve um tempo em que não foi. A Sabedoria, por proceder de Deus, é gerada também da mesma substância divina. Sob a figura de uma emanação corporal, é chamada assim: 'Emanação pura da glória de Deus onipotente' (Sabedoria 7,25). Estas duas comparações manifestam claramente a comunidade de substâncias entre o Pai e o Filho. Com efeito, toda emanação parece ser 'ομοο?σιος', οu seja, de uma mesma substância com o corpo do qual emana ou procede" (In Hebr. frag. 24,359).[27]
Observe-se que ele emprega a palavra "ομοο?σιος" ("homoousios"), que significa "mesma substância", a qual posteriormente seria amplamente empregada pelo Concílio de Nicéia para definir solenemente como o Pai e o Filho possuem uma mesma natureza. Refere-se a Cristo também a expressão "θε?νθρωπος" (Deus-Homem).
Porém, Orígenes possui alguns textos confusos, a ponto de parecer tender para o Subordinacionismo. Entre os que o acusam de ter professado este erro encontra-se São Jerônimo; mas outros Padres da Igreja, como Santo Atanásio e São Gregório Taumaturgo o negam. Um dos textos em que parece ser subordinacionista é este:
"Nós, que cremos no Salvador quando diz: 'O Pai que me enviou é maior do que eu', e por essa mesma razão não permite que lhe seja aplicado o apelativo de 'bom' em seu sentido pleno, verdadeiro e perfeito, atribuindo-o ao Pai, dando graças e condenando quem glorificasse o Filho em demasia, nós dizemos que o Salvador e o Espírito Santo estão muito acima de todas as coisas criadas, por uma superioridade absoluta, sem comparação possível; porém, dizemos também que o Pai está acima Deles tanto ou até mais do que Eles estão acima das criaturas mais perfeitas (In Ioh. 13,25).[28]
SÃO JUSTINO (165 D.C.)
Mártir da fé cristã por volta do ano 165 (foi decapitado), é considerado o maior apologista do século II. No Diálogo com Trifão, refere-se a Cristo como 'Deus gerado do Pai do universo' e parte de textos da Gênese, onde Deus fala na primeira pessoa do plural, para demonstrar a pluralidade das Pessoas divinas. Descarta aqui que estivesse falando com os anjos, já que seria inconcebível que o homem fosse feito por eles; descarta também que estivesse falando com os elementos terrestres. Conclui que falava com Cristo, o qual estava com o Pai antes de todas as criaturas.
"Disse: 'Irei vos apresentar - caros amigos - outro testemunho das Escrituras sobre o que Deus gerou no princípio, antes de todas as criaturas: [gerou] certa potência racional de Si mesmo, a qual é chamada também pelo Espírito Santo, a glória do Senhor, algumas vezes 'Filho', outras vezes 'Sabedoria'; ora 'Anjo', ora 'Deus'; seja 'Senhor', seja 'Palavra'; e ela própria chama a si mesma de 'capitão geral', quando aparece na forma de homem a Josué, filho de Nave. E é assim que todas essas denominações lhe provêm por estar a serviço da vontade do Pai e por ter sido gerada pelo querer do Pai (...) Mas será a Palavra da Sabedoria que me prestará seu testemunho, por ser ela esse próprio Deus gerado do Pai do universo, que subsiste como Palavra e Sabedoria, como poder e glória Daquele que a gerou (...)
Isso mesmo - amigos - expressou a Palavra de Deus pela boca de Moisés, ao nos indicar que o Deus que nos manifestou falou nesse mesmo sentido na criação do homem, ao dizer estas palavras: 'Façamos o homem à nossa imagem e semelhança' (...) E para não distorcerdes as palavras citadas, dizendo o que dizem os vossos mestres - que Deus se dirigiu a Si mesmo ao dizer 'Façamos', da mesma forma que nós quando vamos fazer algo e dizemos 'Façamos' - vos citarei agora outras palavras do mesmo Moisés, pelas quais, sem discussão alguma, teremos que reconhecer que conversava Deus com alguém que era numericamente distinto e juntamente racional. Ei-las aqui: 'E Deus disse: Eis que Adão se tornou como um de nós para conhecer o bem e o mal'. Portanto, ao dizer: 'como um de nós', indica o número dos que entre si conversavam, sendo assim pelo menos dois. Ora, não posso ter por verdadeiro a heresia que se dogmatiza entre vós, nem os mestres delas são capazes de demonstrar que Deus está falando com os anjos ou que o corpo humano foi criado pelos anjos. A menos que tenha brotado, sido emitido realmente a partir do Pai, Ele estava com o Pai antes de todas as criaturas e conversava com o Pai, como nos manifestou a Palavra pela boca de Salomão, ao dizer que antes de todas as criaturas Ele foi gerado por Deus ,como princípio e progênie, sendo chamado 'Sabedoria' por Salomão" (Diálogo com Trifão 61-62).[29]
Mais adiante, refere-se a Cristo como Senhor e Deus:
"Longamente demonstrei que Cristo, que é Senhor e Deus, Filho de Deus, apareceu antes, prodigiosamente, como homem e como anjo, e também na glória do fogo, como na visão da sarça e no juízo contra Sodoma" (Diálogo com Trifão 128).[30]
Em sua 1ª Apologia, distingue clara e ordenadamente as Três Pessoas divinas. Isto descarta que Justino tivesse alguma tendência modalista:
"E logo demonstraremos que com razão honramos também a Jesus Cristo, que foi nosso mestre nestas coisas e que para isso nasceu e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, o procurador da Judéia no tempo de Tibério César. Aprendemos que Ele é Filho do mesmo Deus verdadeiro e o temos em segundo lugar, assim como o Espírito profético está em terceiro" (1ª Apologia 13,3).[31]
Distingue ainda, mais claramente, a pessoa do Pai da do Filho, no capítulo 63, reconhecendo que os profetas falaram de Cristo, proclamando-o como "o Deus de Abraão, Isaac e Jacó":
"Aqueles que dizem que o Filho é o Pai dão prova de que não sabem quem é o Pai, nem perceberam que o Pai do universo tem um Filho e que, sendo Verbo e Primogênito de Deus, é Deus também. Este foi quem primeiramente apareceu a Moisés e aos outros profetas na forma de fogo ou por imagem incorpórea, e que agora, nos tempos do vosso império (...) nasceu homem de uma virgem (...) Agora, aquilo que falou a Moisés a partir da sarça: 'Eu sou aquele que é, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó', significa que, mesmo depois de mortos, esses homens continuavam pertencendo ao próprio Cristo" (1ª Apologia 63,15).
SÃO GREGÓRIO TAUMATURGO (SÉC. III)
Nascido por volta do ano 213, foi bispo de sua cidade natal, Neocesaréia. Compôs um breve símbolo de fé, sobre o qual Quasten comenta: "embora se limite ao dogma da Trindade, é notável por sua exatidão de conceitos e afirma que nenhuma das Pessoas divinas nunca ficaram uma sem as outras e que existiram sempre sem mudanças".
"Há um só Deus, Pai do Verbo vivente, da Sabedoria subsistente, do Poder e da Imagem eterna; gerador perfeito do gerado perfeito, Pai do Filho Unigênito. Há um só Senhor, Único do Único, Deus de Deus, Figura e Imagem da Divindade, Verbo Eficiente, Sabedoria que abraça todo o universo e Poder que cria o mundo inteiro, Filho verdadeiro do Pai verdadeiro, Invisível do Invisível, Incorruptível do Incorruptível, Imortal do Imortal, Eterno do Eterno. E há um só Espírito Santo, que tem sua subsistência de Deus e foi manifestado aos homens pelo Filho: Imagem do Filho, Imagem Perfeita do Perfeito, Vida, Causa dos viventes, Manancial Sagrado, Santidade que comunica a santificação, em quem se manifestam Deus Pai - que está acima de todos e em todos - e Deus Filho - que é através de todos. Há uma Trindade perfeita, em glória, em eternidade e em majestade, que não está dividida nem separada. Não há, conseqüentemente, nada criado nem escravo da Trindade, nem tampouco nada sobre-acrescentado, como se não tivesse existido em algum tempo anterior e fosse introduzido depois. E, assim, nem nunca o Filho falou ao Pai, nem o Espírito Santo ao Filho; ao contrário, sem variação ou mudança, a mesma Trindade sempre existiu" (Exposição da Fé).[32]
NOVACIANO (SÉC. III)
Sacerdote romano. Conforme Eusébio de Cesaréia, se serviu de uma artimanha para ser ordenado bispo de Roma, obrigando que alguns bispos o consagrassem. Causou, assim, um cisma que durou vários séculos. O seu escrito, "Sobre a Trindade" (De Trinitate), porém, foi redigido muitos anos antes de 250 d.C.:
"O Filho, por ser gerado pelo Pai, está sempre no Pai. Quando digo 'sempre', não quero dizer que é ingênito. Afirmo, ao contrário, que nasceu. Porém, nasceu antes de todo o tempo; deve-se dizer que existiu sempre no Pai, visto não ser possível fixar data ao que é anterior a todo o tempo. Ele está eternamente no Pai, pois de outra maneira o Pai não seria sempre Pai. Por outro lado, o Pai é anterior a Ele, pois o Pai deve ser necessariamente anterior ao Filho, já que é Pai; visto que Ele não conhece origem, deve existir anteriormente ao que teve uma origem. O Filho, portanto, é necessariamente posterior ao Pai, pois Ele mesmo reconhece que existe no Pai; teve uma origem, visto que nasceu, e a partir do Pai, de uma maneira misteriosa; contudo, apesar de ter nascido e ter, assim, origem, é em tudo semelhante ao Pai, precisamente em razão de seu nascimento, já que nasceu do Pai, o qual é o único que carece de origem. Ele, portanto, quando o Pai quis, procedeu do Pai; Ele estava no Pai, porque procedia do Pai, não sendo outra coisa senão a Substância divina. Seu nome é Verbo, pelo qual todas as coisas foram feitas e sem o qual nada foi feito. Porque todas as coisas são posteriores a Ele, pois procedem Dele e, conseqüentemente, Ele é anterior a todas as coisas (embora após o Pai), pois todas as coisas foram feitas por Ele. Procedeu do Pai, por cuja vontade todas as coisas foram feitas. Deus, certamente, procedente de Deus, constituindo a segunda Pessoa depois do Pai, por ser Filho, sem que por isso retire do Pai a unidade da divindade" (Sobre a Trindade 31).[33].
Porém, Novaciano professou um Subordinacionismo pois, apesar de possuir a mesma substância, o Espírito Santo era inferior a Cristo e Cristo, por sua vez, inferior ao Pai; por isso, diz que aparece "como o único Deus verdadeiro e eterno; Ele é a única fonte deste poder da divindade, Ainda que seja transmitida ao Filho e concentrada Nele, retorna novamente ao Pai através de sua comunidade de substância":
"O Paráclito recebeu sua mensagem de Cristo. Mas se recebeu de Cristo, Cristo é superior ao Paráclito, pois o Paráclito não teria recebido de Cristo se não fosse inferior a Cristo. Esta inferioridade do Paráclito prova que Cristo, de quem recebeu sua mensagem, é Deus. Aqui tempos, portanto, um poderoso testemunho da divindade de Cristo. Vemos, com efeito, que o Paráclito é inferior a Ele e recebe Dele a mensagem que entrega ao mundo".[34].
SÃO CIPRIANO DE CARTAGO (SÉC. III)
São Cipriano nasceu por volta do ano 200, provavelmente em Cartago, de família rica e culta. Dedicou sua juventude à retórica. O desgosto que sentia diante da imoralidade dos ambientes pagãos, contrastado com a pureza de costumes dos cristãos, lhe induziu a abraçar o Cristianismo por volta do ano 246. Pouco depois, em 248, foi eleito bispo de Cartago. Ao estourar a perseguição de Décio, em 250, julgou melhor se retirar para um lugar afastado, para continuar se ocupando de seu rebanho. Declara a divindade de Cristo numerosas vezes e afirma que quem nega que Cristo seja Deus não pode ser templo de Deus:
"Cristo Jesus, nosso Senhor e Deus, é propriamente o sumo-sacerdote de Deus Pai" (Epístola 63,14).[35]
"Se alguém pudesse ser batizado pelos hereges, poderia certamente receber também o perdão de seus pecados. Se recebesse o perdão dos pecados, poderia ser santificado. Se fosse santificado, poderia se tornar um templo de Deus. Se fosse um templo de Deus, então eu te pergunto: De qual Deus? Do Criador? Porém, isso não é possível, porque ele não crê Nele. De Cristo? Quem nega que Cristo seja Deus não pode se transformar em Seu templo. Do Espírito Santo? A partir do momento em que os Três são Um, como seria possível ao Espírito Santo ser reconciliado com aquele que é um inimigo do Filho ou do Pai?" (Epístola 73,12).[36]
"Após a ressurreição, quando o Senhor enviou os Apóstolos às nações, Ele lhes ordenou a batizar aos gentios em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (...) O próprio Cristo ordenou que as nações sejam batizadas na Trindade plena e unida" (Carta 73,18).[37]
SÃO DIONÍSIO DE ROMA (SÉC. III)
Papa entre os anos de 259 e 268. Combateu o Modalismo e o Subordinacionismo. Quando foi apresentada a Dionísio de Roma uma acusação de que o bispo Dionísio de Alexandria se expressava incorretamente sobre a Trindade, originou-se uma controvérsia que ficou conhecida como "a controvérsia dos dois Dionísios". O Papa convocou um sínodo para o ano de 260 visando solucionar a questão. Em seu nome e em nome do sínodo escreveu uma carta na qual condenava a doutrina modalista de Sabélio e também as opiniões marcionitas que dividiam a monarquia divina em três hipóstases distintas e ainda aqueles que representavam o Filho de Deus como criatura. Na carta a Dionísio de Alexandria, o Papa classifica de blasfema a opinião de que o Filho era o Pai (modalismo) e censura, ainda, a doutrina apoiada pelos catequistas de Dionísio de Alexandria, que afirmavam que cada Pessoa divina tinha uma natureza diferente da outra:
"Ouví dizer que alguns dos teus catequistas e mestres da palavra divina encabeçam este princípio [herético que divide as naturezas das Pessoas divinas]. Eles ensinam de maneira diametralmente oposta à opinião [herética] de Sabélio. Para ele, em sua blasfêmia, diz que o Filho é o Pai e vice-versa; para os teus, que existe de alguma forma três Deuses, pois dividem a Sagrada Unidade em três substâncias diferentes entre si e completamente separadas" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 1).[38]
Também declara que o Arianismo é uma blasfêmia pois afirma que Cristo é um ser criado e que, por ser Cristo a Palavra, Sabedoria e poder de Deus, pode ter havido um tempo em que o Pai existisse sem Ele:
"É blasfêmia, portanto, e até pior, dizer que o Senhor foi de alguma forma criado. Porém, se veio a ser Filho, então Ele não foi [criado], como Ele diz de si mesmo; Ele está no Pai e se você conhece a Divina Escritura, ela diz que Cristo é a Palavra, a Sabedoria e o Poder; e esses atributos são poderes de Deus. Então Ele sempre existiu. Ora, se Ele veio a ser [criado], houve uma época em que esses atributos não existiam e, conseqüentemente, nesse tempo Deus estava sem eles; isso é um completo absurdo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 1).
"É necessário, no entanto, que a Palavra divina [Jesus Cristo] esteja unida ao Deus do universo; e o Espírito Santo deve respeitar e habitar em Deus. Portanto, a Trindade Divina deve ser reunida em Uma, como se fosse um ápice, quero dizer, o Deus onipotente do universo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 2).
"Não podemos então dividir em três cabeças divinas a maravilhosa e divina monarquia, nem chamar 'obra', desacreditando a dignidade e excelente majestade de nosso Senhor. Devemos, porém, crer em Deus, o Pai todopoderoso; e em Jesus, seu Filho; e no Espírito Santo. Sustentemos, enfim, que a Palavra está unida ao Deus do universo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 3).
CONCLUSÃO
Depois de termos estudado o testemunho dos Padres pré-nicenos, não é difícil concluir que a doutrina trinitária não é nenhuma novidade e, muito menos, um produto das manobras políticas do imperador Constantino. A Igreja foi fiel em reconhecer que existe um só Deus, sendo Ele Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, e esta verdade era compreendida e ensinada com maior ou menor clareza na era pós-apóstolica e pré-nicena. É claro, ainda, que a maioria dos Padres rejeitavam abertamente tanto o Arianismo (que afirmava que Jesus era um deus menor, criado e subordinado ao Pai, em algum momento não existente) e o Modalismo (que afirmava que existia uma só Pessoa Divina em Deus, sendo o Filho o próprio Pai e vice-versa, embora manifestados de modos diferentes). É certo que alguns Padres não compreenderam cabalmente o mistério trinitário e chegaram a tender para um Subordinacionismo em maior ou menor grau, coisa totalmente compreensível em assunto de tão grande complexidade. Foram, precisamente, conflitos tão graves como o Arianismo e outras heresias, que deram oportunidade à Igreja a se aprofundar nestas verdades de fé.

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Notas:
[1] Retirado de http://www.ipue.com/unicidad.htm.
[2] Padres Apostólicos, Daniel Ruiz Bueno, (BAC 65), Pág. 84.
[3] Ibid. Pág. 688.
[4] Ibid. Pág. 1020.
[5] Ibid. Pág. 447.
[6] Ibid. Pág. 451.
[7] Ibid. Pág. 457.
[8] Ibid. Pág. 474.
[9] Ibid. Pág. 488.
[10] Ibid. Pág. 498-499.
[11] Retirado de Padres Apologetas Griegos, Daniel Ruiz Bueno (BAC 116), Pág. 130.
[12] Ibid. Pág. 660-661.
[13] Ibid. Pág. 661.
[14] Ibid. Pág. 602.
[15] Patrología I, Johannes Quasten (BAC 206), Pág. 240.
[16] Ibid Pág. 241.
[17] Retirado de The Faith of the Early Fathers, Vol. I, William A. Jurgens, Pág. 81.
[18] Contra as Heresias, Santo Ireneu de Lião, Conferência do Episcopado Mexicano. Edição preparada pelo pe. Carlos Ignacio Gonzáles.
[19] The Faith of the Early Fathers, Vol. I, William A. Jurgens, Pág. 176.
[20] Ibid. Pág. 177.
[21] New Advent Encyclopedia, http://www.newadvent.org/fathers/02091.htm.
[22] Patrología I, Johannes Quasten (BAC 206), Pág. 236.
[23] Padres Apologetas Griegos, Daniel Ruiz Bueno (BAC 116), Pág. 796.
[24] Ibid. Pág. 813.
[25] Retirado de New Advent Encyclopedia, http://www.newadvent.org/fathers/0407.htm.
[26] Ibid. http://www.newadvent.org/fathers/0317.htm.
[27] Patrología I, Johannes Quasten (BAC 206), Pág. 389.
[28] Ibid. Pág. 390.
[29] Retirado de Padres Apologetas Griegos, Daniel Ruiz Bueno (BAC 116), Pág. 409-412.
[30] Ibid. Pág. 526.
[31] Ibid. Pág. 194.
[32] Retirado de Patrología I, Johannes Quasten (BAC 206), Pág. 433.
[33] Ibid. Pág. 529.
[34] Ibid. Pág. 531.
[35] Retirado de The Faith of the Early Fathers, Vol. I, William A. Jurgens, Pág. 81.
[36] Ibid. Pág. 232-233.
[37] Ibid. Pág. 232-233.
[38] Ibid. Pág. 249.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

O demônio mudo e as confissões sacrílegas


 
 Confissão não é uma mera "conversa" entre sacerdote e fiel, mas o tribunal de Deus, onde o penitente confessa nada mais que os seus pecados, sobretudo os graves (e mortais)
Erat (Iesus) eiciens daemonium, et illud erat mutum ― «Estava (Jesus) expelindo um demônio, e ele era mudo» (Lc 11, 14).
O demônio mudo de que fala o Evangelho, significa o falso pejo com que o espírito infernal, depois de seduzir o cristão a ofender seu Deus, procura fazê-lo ocultar o pecado na confissão. Ah, quantas almas caem todos os dias no inferno por este ardil diabólico! Meu irmão, se jamais o demônio te vier tentar assim, pensa que, se é vergonhoso ofender a Deus tão bom, não o é o confessar o pecado cometido e o livrar-se dele. Quantos santos são venerados sobre os altares, que até fizeram uma confissão pública!
 
I. O demônio mudo de que fala o Evangelho, é o falso pejo com que o espírito infernal procura fazer-nos calar na confissão os pecados cometidos, depois de primeiro nos ter cegado para não vermos o mal que cometemos e a ruína que nos preparamos ofendendo a Deus. ― Com efeito, exclama São João Crisóstomo, o demônio faz em todas as coisas o contrário do que Deus faz. O Senhor pôs vergonha no pecado, para que o não cometamos; mas depois de o havermos cometido, anima-nos a confessá-lo, prometendo o perdão a quem se acusa. O demônio, ao contrário, inspira confiança ao pecador com a esperança do perdão; mas cometido o pecado, cobre-o de vergonha, para que se não confesse.
 
Por este ardil diabólico, oh, quantas almas já foram precipitadas e ainda se precipitam cada dia no inferno! Sim, porque os miseráveis convertem em veneno o remédio que Jesus Cristo nos preparou com seu preciosíssimo sangue, e ficam presas com uma dupla cadeia, cometendo depois do primeiro pecado outro mais grave: o sacrilégio.
 
Irmão meu, se por desgraça a tua alma está manchada pelo pecado, escuta o que te diz o Espírito Santo: Pro anima tua ne confundaris dicere verum (Eclo 4, 24). Sabe, diz ele, que há duas qualidades de vergonha; deves fugir daquela que te faz inimigo de Deus, conduzindo-te ao pecado; mas não dá que se sente ao confessá-lo e te faz receber a graça de Deus nesta vida e a glória do paraíso na outra.
 
Se, pois, te queres salvar, não te envergonhes de fazer uma boa confissão; aliás a tua alma se perderá. As feridas gangrenosas levam à morte, e tais são os pecados calados na confissão; são chagas da alma que se gangrenaram.
II. Meu filho, vergonhoso é o entrar nesta casa, mas não o sair dela. Assim falou Sócrates a um seu discípulo que não quis ser visto ao sair de uma casa suspeita. É o que digo também àqueles que, depois de cometerem um pecado grave, têm pejo de o confessar. Meu irmão, coisa vergonhosa é ofender a um Deus tão grande e tão bom; mas não o é confessarmos o pecado cometido e livrar-nos dele. Foi por ventura coisa vergonhosa para Santa Maria Madalena o confessar em público aos pés de Jesus Cristo, que era uma mulher pecadora? Foi motivo de pejo confessar-se uma Santa Maria Egypciaca, uma Santa Margarida de Cortona, um Santo Agostinho, e tantos outros penitentes, que algum tempo tinham sido grandes pecadores? Por meio de sua confissão fizeram-se santos.
 
Ânimo, pois, meu irmão, ânimo! (Falo a quem cometeu a falta de ocultar por vergonha um pecado.) Tem ânimo e dize tudo a um confessor. Dá glória a Deus, e confunde o demônio que, como diz o Evangelho, quando saiu do homem, anda por lugares secos, buscando repouso, e não o acha. ― Porém, depois de te teres confessado bem, prepara-te para novos e mais violentos assaltos da parte do inimigo infernal. Ai de quem o deixa entrar novamente, depois de o haver expulso! Et fiunt novissima hominis illius peiora prioribus ― «O último estado do homem virá a ser pior do que o primeiro».
 
Ó meu amabilíssimo Jesus! iluminai o meu espírito, afim de que nunca mais me deixe obcecar pelo espírito maligno a cometer de novo o pecado. Pesa-me de Vos haver ofendido, e proponho com a vossa graça antes morrer que tornar a ofender-Vos. Mas, se por desgraça recair, dai-me força para sempre vencer o demônio mudo e confessar-me sinceramente ao vosso ministro. «Peço-Vos, Deus todo-poderoso, que atendais propício às minhas humildes súplicas, e que em minha defesa estendais o braço de vossa majestade»[1]. † Doce Coração de Maria, sede minha salvação. (*III 413.)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Os suicidas estão automaticamente condenados ao inferno??



Antigamente se pensava que sim, embora a Igreja nunca tenha ensinado isso oficialmente; pois ela nunca disse o nome de um condenado. Hoje, com a ajuda da psicologia e psiquiatria, sabemos que a culpa do suicida pode ser muito diminuída devido a seu estado de alma.
Evidentemente que o suicídio é, objetivamente falando, um pecado muito grave, pois atenta contra a vida, o maior dom de Deus para nós. Infelizmente há países que chegam a facilitar e até mesmo a estimular essa prática para pacientes que sofrem ou para doentes mentais. Na Suíça, por exemplo, uma decisão da Suprema Corte abriu o caminho para a legalização da assistência ao suicídio de pacientes mentalmente doentes. O país já permite legalmente o suicídio assistido para outros tipos de pacientes com uma ampla faixa de doenças e incapacidades físicas. É o império da “cultura da morte” por meio da eutanásia.

Não acreditem em tudo que ouvem por ai pessoal,vamos ver o que diz O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA:

§2280 – “Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e a salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela”.

§2281 – “O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo”.
Mas o Catecismo lembra também que a culpa da pessoa suicida pode ser muito diminuída:
§2282 – “Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrário à lei moral. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida”.
Portanto, ninguém deve pensar que a pessoa que se suicidou esteja condenada por Deus; os caminhos de Sua misericórdia são desconhecidos de nós. O Catecismo manda rezar por aqueles que se suicidaram:

§2283 – “Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.

Certa vez, São João Maria Vianney, também conhecido como “Cura D’Ars”, ao celebrar a Santa Missa notou que uma mulher vestida de luto estava no final da igreja chorando, seu marido havia se suicidado na véspera, saltando da ponte de um rio. O santo foi até ela no final da Celebração Eucarística e lhe disse: “Pode parar de chorar, seu marido foi salvo, está no Purgatório; reze por sua alma”. E explicou à pobre viúva: “Por causa daquelas vezes que ele rezou o Terço com você, no mês de maio, Nossa Senhora obteve de Deus para ele a graça do arrependimento antes de morrer”. Não devemos duvidar dessas palavras.

Portanto pessoal , como diz o Catecismo: "Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida."