sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Perseverança Final Na Hora da Morte e Oração

Por Santo Afonso de Ligório


vida
Algumas vezes em tentações mais fortes, a graça suficiente que Deus não nega a ninguém poderia bastar para resistirmos ao pecado. Mas devido às nossas más tendências, ela não nos bastará; necessitamos então de uma graça especial. Quem reza alcança esta graça; quem não reza, não a consegue e se perde.

Tratando-se particularmente da graça da perseverança final, isto é, de morrer na amizade de Deus, o que é absolutamente necessário para a nossa salvação, do contrário estaremos para sempre perdidos, esta graça Deus não a dá senão a quem pede (84). Este é um dos motivos porque muitos não se salvam, pois são poucos os que cuidam de pedir a Deus a graça da perseverança final.


Rezar Sempre

Resumindo a oração é necessária não só por necessidade de preceito (nota), mas ainda por necessidade de meio. Isto quer dizer: quem não reza, é impossível que se salve. A razão é que não podemos alcançar a salvação sem o auxílio da graça de Deus e Deus só dá esta graça a quem lhe pede. Sendo contínuas as tentações e os perigos de perdermos a amizade de Deus contínuas também devem ser as nossas orações. Por isso escreveu Santo Tomás: “A oração contínua é necessária ao homem” para entrar o céu.(85). No momento que deixarmos de nos recomendar a Deus, o demônio nos vencerá (86).

Embora a graça da perseverança final não possa ser merecida por nós, como ensina o Concílio de Trento, contudo pode-se merecê-la de certo modo com a oração (87). O Senhor quer nos dar suas graças, mas quer que as peçamos; quer até mesmo ser importunado e como que constrangido com nossas orações, como escreve S. Gregório (88). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que quando pedimos as graças a Deus, Ele não só nos atende, mas de certo modo nos agradece (89). Sim, porque sendo Deus a bondade infinita, deseja comunicar-se com as pessoas tendo, por assim dizer, um desejo enorme de distribuir-lhe seus bens; mas Ele quer que peçamos. Por isso quando uma pessoa lhe pede, é tanto o seu prazer que de certa forma se vê obrigada a agradecer.

Portanto, se queremos permanecer na amizade de Deus até a morte, precisamos sempre nos fazer mendigos e ter a boca aberta para pedir a Deus que nos ajude, repetindo sempre:

- “Meu Jesus, misericórdia! Não permitais que eu me separe de vós. Meu Deus, ajudai-me, socorrei-me!”

A oração freqüente dos antigos monges do deserto era: “Senhor, atendei às minhas preces, vinde depressa em meu auxílio” (90). Senhor, ajudai-me depressa, porque se demorardes, eu cairei na desgraça e me perderei.

É preciso fazer assim principalmente nos momentos de tentações. Quem não faz assim, está perdido!

Confiança na oração

Tenhamos grande fé na oração; Deus prometeu atender aquele que lhe pede: “Pedi e recebereis”. Porque vamos duvidar, se o Senhor se obrigou com sua promessa e Ele não pode faltar à promessa de nos conceder a graça que lhe pedimos? (92) Quando recorremos a Deus tenhamos plena confiança de que Deus nos atenderá e alcançaremos aquilo que queremos. “Tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebereis, e ser-vos-á dado”.

Mas alguém poderá dizer:
- Sou um pecador, não mereço ser ouvido
- Mas Jesus é que disse: “todo aquele que pede recebe”, seja justo ou pecador. Ensina Santo Tomás que a força da oração para obtermos a graça, não vem dos nossos méritos mas da misericórdia de Deus que prometeu ouvir aquele que lhe pede. Nosso Salvador para nos tirar todo o receio quando rezamos, nos diz: “Em verdade, em verdade vos digo, o que pedirdes ao Pai, em meu nome, ele vo-lo dará”. É como se dissesse: Pecadores, não tendes merecimentos para ganhar as graças. Fazei assim, quando desejardes as graças: pedi ao meu Pai em meu nome, isto é, pelos meus merecimentos e pelo meu amor; pedi quanto quiserdes e vos será dado.

Notemos a expressão “em meu nome”, isto em, em nome do Salvador. Por isso tudo que pedimos deve ser graças referentes à nossa salvação; é bom reparar que a promessa não se refere a bens temporais. Os bens temporais quando são úteis à salvação eterna, ele nos concede mas quando não são, ele nos nega. Pedindo bens temporais lembremo-nos de pedi-los com a condição de que sejam úteis à nossa alma. Quando são graças espirituais então não existem condições, mas confiança e confiança infalível. Podemos dizer “Pai Eterno em nome de Jesus Cristo livrai-me desta tentação e dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor, dai-me o céu”. Todas essas graças podemos pedi-las a Jesus Cristo em seu nome, isto é, pelos seus méritos, pois aqui existe a promessa de Jesus: “Tudo que pedirdes a meu Pai em meu nome, eu o farei”.

Quando rezamos a Deus não nos esqueçamos de nos recomendar à dispensadora das graças, Maria. Deus é quem dá as graças, mas é pelas mãos de Maria que ele as dá. Como diz São Bernardo: “Busquemos as graças e busquemo-las por meio de Maria, porque o que ela procura para nós sempre acha; nada lhe pode ser recusado”. Se Maria pede também por nós, estamos seguros, porque as orações de Maria são todas ouvidas e nunca rejeitadas.



Certeza da Salvação Eterna?
Por:


Desenvolvendo a resposta às questões acima, consideraremos sucessivamente: 1) em que consiste a perseverança final; 2) a maneira de obter esta graça e 3) os motivos de confiança do cristão perante o mistério da salvação eterna.

1. Em que consiste a perseverança final

1.1. Em estrita linguagem teológica, diz-se que a perseverança final é o dom resultante da ocorrência simultânea de dois favores especiais do Senhor:

a) o estado de graça, em que o justo possui a vida sobrenatural e o conjunto de dons (virtudes infusas, dons do Espírito Santo) que ornamentam a alma em tal situação;
b) a coincidência da hora da morte com a posse do estado de graça — o que equivale ao dom de boa e santa morte.
Não há dúvida, para que o homem encerre sua peregrinação terrestre precisamente num instante em que sua alma esteja voltada para Deus, requer-se especial disposição da Providência, pois só esta domina soberanamente os termos da vida e da morte. É precisamente na simultaneidade do instante da morte com o estado de graça que consiste a graça da perseverança final.

Os dois elementos acima assinalados são evidentemente dons ou favores do Senhor, já que o livre arbítrio humano, falível como é, não tem em si o poder de permanecer ou de se imobilizar no bem, muito menos tem o poder de se imobilizar no bem em certo momento de sua existência, como é o momento da morte (momento cuja escolha ou determinação escapa totalmente ao nosso alcance).

Por isto o Concilio de Trento fala do «grande dom da perseverança final» (Denzinger, Enchiridion 726); é dom do qual, em última análise, depende toda a salvação eterna do homem (cf. Mt 10,22: «Aquele que perseverar até o fim, será salvo»); por isto deve ser atribuído a especial benevolência do Criador para com a criatura.

1.2. As páginas bíblicas, em mais de uma passagem, inculcam a soberania de Deus no tocante à salvação humana; esta, de modo geral, deve ser tida como gratuito dom do Altíssimo. É o que S. Paulo ensina com muita ênfase:

«Não somos capazes de atribuir a nós o que quer que seja, como se proviesse de nós mesmos, mas é de Deus que vem a nossa aptidão» (2 Cor 3,5).
«Que é que te distingue? Que é que possuis que não tenhas recebido?» (1 Cor 4,7).

Aliás, o próprio Cristo afirmou:
«Sem Mim nada podeis fazer» (Jo 15,5);
«Ninguém vem a Mim, se o Pai não o atrai» (Jo 6,44).

Explicitamente, a perseverança final é atribuída à soberana graça de Deus no seguinte texto de São Paulo:
«Rendo graças a meu Deus todas as vezes que me lembro de vós... convicto que de Aquele que iniciou em vós a boa obra prosseguirá no seu aperfeiçoamento até o dia do Cristo Jesus» (Flp 1,3.6).

... ou ainda nos dizeres de São Pedro:
«O Deus de toda a graça, que por Cristo vos chamou à sua eterna glória, vos aperfeiçoará, vos dará firmeza e vigor, tornando-vos inabaláveis» (1 Pdr 4,10).

No Antigo Testamento, o livro da Sabedoria mostra a Providência Divina a fazer coincidir a hora da morte com o estado de inocência do homem justo:
«Deus transferiu o justo do meio dos pecadores, onde vivia. Foi arrebatado para que a malícia não lhe corrompesse o modo de pensar, nem a astúcia lhe pervertesse a alma... Sua alma era agradável ao Senhor; e é por isto que Ele sem demora o retirou do meio da perversidade» (Sab 4,10s. 14).


1.3. Por sua vez, os concílios no decorrer da história da Igreja ensinaram tal doutrina.

Assim o sínodo de Orange (Gália) em 529 inculcava que «os cristãos batizados e os santos deverão sempre implorar o auxílio de Deus, para que possam chegar a santo desenlace e perseverar na prática do bem» (Denzinger 183).

Mais tarde, o Concilio de Trento (1545-1563) declarou solenemente:

«O grande dom da perseverança final não pode provir senão d'Aquele que é poderoso para corroborar quem está em pé, a fim de que persevere, e... poderoso para reerguer aquele que cai» (Denzinger 832).

«Se, exceto em caso de especial revelação divina, alguém com absoluta e infalível segurança asseverar que certamente possuirá o grande dom da perseverança final, seja tido como herege» (Denzinger 826).

«Ninguém pode com absoluta certeza prometer a si mesmo o que quer que seja, embora todos devam colocar firmíssima esperança no auxílio divino. Com efeito, se a criatura humana não se furta à graça, Deus leva a bom termo a obra que Ele começou, produzindo no homem tanto o querer como o realizar» (Denzinger 806; cf. Flp 2,13).

Como se vê, o Concilio acentua bem duas verdades capitais, que, embora pareçam antagônicas, se completam mutuamente: de um lado, ninguém pode ter certeza absoluta de que perseverará no bem até o fim de sua vida, pois a adesão ao bem e a coincidência desta com a hora da morte são independentes da vontade e do esforço humanos; ninguém pode garantir para si bom êxito no combate travado contra a carne, o mundo e o demônio. De outro lado, a incerteza assim gerada é cheia de confiança e esperança, pois o Senhor não recusa a nenhum justo sincero o auxílio oportuno; não deixa inacabada a obra que Ele iniciou na sua criatura (e o sinal de que iniciou sua obra, é o próprio desejo sincero que a criatura humana tenha, de perseverar no bem).

Já estas proposições nos incutem a consciência de estarmos focalizando um dos mais insondáveis, mas certamente grandiosos, desígnios da Sabedoria Divina. Contudo, não será ilícito perguntar:

2. Como se poderia obter a graça da perseverança final?
Em duas sentenças se resume a resposta:

1) O dom da perseverança final não pode ser merecido (ou obtido por merecimento).

Por mérito entende-se a recompensa que Deus dá a alguma boa obra do homem ou a título de justiça (tal é o mérito dito «de condigno») ou a título de caridade, isto é, levando em conta os direitos da amizade que existe entre o Senhor e a alma justa (tal é o mérito dito «de côngruo»).

Pois bem; os teólogos afirmam que a perseverança final não pode, a título algum, ser obtida por mérito. É o que se depreende do seguinte raciocínio:

O dom da perseverança final não é senão o estado de graça conservado ou restaurado no momento da morte.
Ora o estado de graça vem a ser o princípio mesmo de todo e qualquer mérito; vem a ser a condição indispensável para que se possa adquirir algum mérito, pois é a graça que eleva a alma à ordem sobrenatural, habilitando-a a agir no plano da recompensa eterna.

Em outros termos: toda recompensa que o homem possa obter de Deus é de ordem sobrenatural; ora somente a graça coloca o homem na ordem sobrenatural ou à altura de adquirir algum título (ou mérito) na linha sobrenatural.

Está claro, porém, que o princípio ou a condição prévia de qualquer mérito não pode ser simultaneamente objeto adquirido por mérito; a raiz do mérito não pode ser merecida; em caso contrário, ter-se-ia um círculo vicioso. Donde se vê que a posse do estado de graça e, em particular, do estado de graça na hora da morte (= dom da perseverança final) jamais pode ser conquistada por mérito, mas há de ser dom totalmente gratuito da parte de Deus.

Isto equivale a dizer que é a Misericórdia, e não a Justiça de Deus, que coloca o homem em estado de graça e que o conserva neste estado (a conservação não é senão uma criação continuada ou «o ato inicial de colocar em estado de graça» continuado ou prolongado). E, a sua Misericórdia, Deus a exerce para com todo justo que a aceite ou que não lhe ponha obstáculo; Ele só não a exerce (permitindo então que se atue simplesmente a Justiça) no caso em que a criatura a recuse ou lhe resista.

É essa dualidade de procedimento divino que se observa na cena dos dois ladrões crucificados com Cristo: a um, que se mostrou de ânimo bem disposto, embora não tivesse mérito algum, o Senhor outorgou o dom de uma santa morte ou da morte em estado de graça, ao passo que não se pode com certeza dizer o mesmo a respeito do outro malfeitor, que ainda nos últimos instantes de vida blasfemava contra Deus (contudo ninguém ousará afirmar que o mau ladrão haja incorrido na condenação eterna; pode-se ter finalmente arrependido em seu íntimo). — Sobre o valor da fé e das obras na justificação, veja a resposta no 6 deste fascículo.

De resto, o concilio regional de Quierzy (França) em 853 inculcava claramente:
«Deus todo-poderoso quer que todos os homens sem exceção se salvem (cf. 2 Tim 2,4), embora nem todos o consigam. O fato de que certo número deles obtém a salvação, deve-se ao dom do Salvador; quanto à perda dos outros, seja ela atribuída à culpa dos mesmos» (Denzinger 318).

2) O dom da perseverança final pode ser obtido pela oração.

É precisamente a oração o recurso que o homem tem para se dirigir à Misericórdia de Deus (ao passo que o mérito se dirige à Justiça Divina).

Não há dúvida de que pela oração os homens podem conseguir graças que eles não obtêm por mérito. Tal é o caso, por exemplo, do pecador que, orando, pode alcançar do Senhor o dom da conversão ou a graça santificante, graça que certamente ele não obtém por mérito, pois tal graça vem a ser o princípio ou a raiz de qualquer mérito. — Ora o mesmo se dá com o dom da boa morte ou da perseverança final.

Disto se depreende a necessidade que a todos os fiéis incumbe, de pedir a Deus uma santa morte; não a pedir constituiria a mais funesta das negligências, ou a negligência da salvação eterna. Eis também porque frequentemente a Igreja coloca nos lábios de seus filhos a prece: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte». Tendo em vista o fato de que toda oração feita em nome de Cristo, ou seja, em demanda dos bens da Redenção, jamais é vã (de acordo com a promessa do próprio Jesus em Jo 16,23s), muitos teólogos julgam provável a sentença segundo a qual o dom da perseverança final pode, com sucesso infalível, ser obtido mediante a oração.

São Tomás se compraz em enumerar quatro condições que hão de ser preenchidas para que se possa atribuir plena eficácia à oração: «...reze o orante por si (em seu favor), pedindo bens necessários à salvação, de maneira piedosa e perseverante» (Suma Teológica II/II 83,15 ad 2).

A primeira condição talvez cause estranheza: reze o orante em seu próprio favor... A cláusula se explica pelo fato de que, quando rezamos por outrem, talvez estejamos intercedendo por alguém cujo coração se ache voluntariamente obstinado no pecado, resistindo, portanto, à graça de Deus; em tal caso, é claro que a nossa oração pode ser frustrada, pois Deus não costuma conceder seus dons a quem não os queira receber. Ao contrário, quando rezamos por nós mesmos, é de supor estejamos sinceramente desejosos de receber a graça do Senhor.

A cláusula «rezar com perseverança» também merece especial atenção. Assim como não é fácil à criatura persistir no cumprimento do bem, também não lhe é fácil persistir na prática da oração. Em vista disto, recomendam os autores, estimemos com particular afinco a graça de perseverar na prece; peçamos ao Senhor, não nos deixe sucumbir à tentação de não orar; livre-nos do mal de perder o prazer de rezar, fazendo-nos, antes, atravessar vitoriosamente as fases de aridez e cansaço que não raro acometem as almas de oração.

3. Os motivos de imperturbada confiança

Na incerteza em que todo homem se acha perante o mistério da salvação eterna, o cristão vive muito alegre e sereno (basta recordar, por exemplo, a figura otimista e ardorosa de São Paulo refletida nas epístolas do grande Apóstolo).

Três são os pontos aptos a suscitar, no discípulo de Cristo, profunda e tranquila confiança frente aos arcanos da perseverança final.

1) O primeiro desses pontos é — paradoxalmente — o fato mesmo de que a nossa persistência no bem está baseada não no poder e na sabedoria do homem, mas, sim, na transcendente e soberana munificência de Deus. O fato de que tudo depende do Senhor, por muito aterrador que pareça à primeira vista, vem a ser justamente a maior fonte de paz e alegria para o cristão; com efeito, este sabe que a misteriosa Liberalidade de Deus é sempre movida por bondade e amor, nunca por espírito de prepotência ou tirania. Se Deus quer dar e pode dar (como de fato acontece), certamente dará, e dará com muito mais eficácia e abundância do que a criatura daria a si mesma — desde, porém, que se verifique da parte do homem uma condição indispensável: não oponha resistência à graça, seja dócil à ação divina em sua alma. Seja lícito repetir: por depender da Liberalidade divina, a salvação do homem está muito mais garantida do que se dependesse direta e exclusivamente da sabedoria da criatura.

Escrevendo a uma pessoa assaltada por preocupações concernentes à salvação eterna, o famoso bispo e pregador Bossuet (+1704) recomendava:

«Essas preocupações, quando vêm ao espírito, provocando da nossa parte vãos esforços para as dissipar, devem induzir-nos finalmente a um abandono total de nós mesmos a Deus, abandono tranquilo porque nossa salvação está infinitamente melhor nas mãos de Deus do que em nossas próprias mãos; é nesta atitude, e nesta só, que encontramos a paz. É a tal abandono que nos devem provocar toda a doutrina da predestinação, assim como os desígnios misteriosos do Soberano Senhor, desígnios que é preciso adorar sem os pretender perscrutar. É mister que nos percamos nesse abismo e nessa profundidade impenetráveis da Sabedoria de Deus; é necessário que nos lancemos irrestritamente dentro da sua imensa Bondade, esperando tudo de Deus, sem, porém, nos dispensarmos dos esforços para nos salvar que o Senhor exige de nós... O desfecho de vossas preocupações deve ser o abandono a Deus, que destarte está obrigado, por sua bondade e suas promessas, a vigiar por vós» (Cartas de direção, nas Obras completas de Bossuet. Paris 1846 XI 444).

O mesmo autor, em suas «Meditações sobre o Evangelho» II parte, 72 dia, pondera o seguinte:
«O homem soberbo teme que a sua salvação se torne demasiado incerta, caso não a possua em suas mãos; engana-se, porém. Poderia eu ter segurança em mim mesmo? Meu Deus, sinto que minha vontade me escapa a todo momento; se me quisésseis constituir único senhor da minha sorte, eu recusaria faculdade tão perigosa para a minha fraqueza. Não me digam, portanto, que a doutrina da graça e da livre escolha divina leva as almas boas ao desespero. Julgam os homens que mais me tranquilizarão se me fizerem apoiar-me em mim mesmo e se me entregarem à minha inconstância? Não, meu Deus; não consinto nisso. Não posso encontrar segurança senão abandonando-me a Vós. E tanto maior é a minha paz quanto mais vejo que aqueles a quem dais a confiança de se abandonarem totalmente a vós, recebem ... os melhores sinais de vossa Bondade que se possam ter sobre a terra».

Por conseguinte, entrega confiante a Deus; eis a única atitude que o cristão possa e deva tomar após verificar que a sua salvação depende primariamente da benevolência do Pai Celeste.

2) O segundo motivo de confiança frente ao mistério da salvação é a eficácia mesma da oração, de que tratávamos atrás. O Senhor insistentemente exortou os discípulos a pedir «em nome de Cristo», ou seja, a pedir os bens necessários à vida eterna, prometendo atender benevolamente (cf. Jo 16,23s).

Está claro que a oração sincera é geralmente acompanhada de conduta de vida virtuosa, e, vice-versa, a vida virtuosa está intimamente associada à prática da oração. É o que leva os teólogos a afirmar que de modo geral o exercício assíduo das boas obras é sinal de perseverança final na graça (não em vão se costuma dizer que «cada pessoa morre como viveu»).

Em particular, os autores indicam os seguintes característicos como sinais de perseverança final no bem:
·                    a delicadeza de consciência, que leva o cristão a não condescender com pecado algum, ainda que pareça leve. Cf. 1 Jo 3,21: «Caríssimos, se nosso coração não nos condena, temos plena segurança diante de Deus»;
·                    o espírito de oração e meditação. Cf. Eclo 7.40: «Em tudo que fizeres, recorda-te do teu fim, e jamais pecarás»;
·                    verdadeira humildade, a qual é o melhor penhor da obtenção da graça e da conservação das virtudes. Cf. Tg 4,6: «Deus resiste aos soberbos, e dá a graça aos humildes»;
·                    paciência serena nas adversidades. Cf. Rom 8,17: «Sofremos com Cristo para ser glorificados com Ele»; 2 Tim 2,12: «Se sustentarmos com Cristo, com Ele reinaremos»;
·                    caridade operosa em favor do próximo e frequente exercício das obras de misericórdia espirituais e corporais. Cf. Tg 5,20: «Aquele que do erro converte um pecador, salvará da morte a sua própria alma. e cobrirá uma multidão de pecados» (cf. também Tob 4,11);
·                    devoção sincera a Cristo Redentor, à S. Eucaristia, à Paixão do Senhor, à Ssma. Virgem, refúgio dos pecadores, à Santa Igreja, dispensadora da graça e da verdade.

3) Referem-se revelações, de caráter particular, que prometem a graça da perseverança final a quem pratique tais ou tais obras boas; seriam, por exemplo, a promessa do S. Coração de Jesus em favor de quem receba a S. Comunhão na primeira sexta-feira de nove meses consecutivos, a promessa da Virgem Santíssima em favor dos devotos do escapulário do Carmo, a promessa de Fátima (1).

(1) Aqui se segue, conforme o depoimento de Lúcia, o teor da mensagem que Maria Santíssima terá dirigido a esta vidente em Fátima:
"Tu, ao menos, procura consolar-mc, e dize que prometo assistir na hora da morte, com todas as graças necessárias à salvação, a todos os que, no primeiro sábado de cinco meses seguidos, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem companhia durante quinze minutos, meditando os mistérios do rosário, com o fim de me desagravarem».

Note-se, porém, que estas e outras promessas (as quais não constituem matéria de fé obrigatória) não devem ser tidas como «passaportes» para a eternidade. A eficácia de tais promessas está condicionada ao cumprimento das demais condições impostas a todos os homens para que alcancem a vida eterna (observância dos preceitos de Deus e da Igreja, esforço em prol das virtudes...); as promessas mencionadas desempenham primariamente o papel de fomentar as práticas de virtude ou de devoção para com a S. Eucaristia ou para com a Ssma. Virgem, ... práticas que, como se dizia atrás, são geralmente consideradas penhores de perseverança final no bem.

São Roberto Belarmino (+1621) propõe no texto abaixo os princípios que servem para se interpretar qualquer promessa de salvação anexa a alguma obra particular:

«Muitas vezes a S. Escritura atribui a alguma prática de piedade o poder de justificar as almas ou mesmo de lhes assegurar a salvação. Isto não quer dizer que tais práticas por si mesmas possam justificar e salvar, mas apenas que possuem a eficácia de contribuir para a justificação e a vida eterna, contanto que sejam associadas a outros meios de salvação, como a fé, o estado de graça, a observância dos mandamentos» (De paenitentia 1. II c. VII);

Entendidas dentro deste quadro doutrinário, pode-se reconhecer verdadeiro valor às práticas de devoção recomendadas por revelações particulares feitas a tais e tais santos no decorrer da história.

Em se tratando de motivos de confiança cristã, pode-se por fim mencionar, a titulo de ilustração, uma sentença propalada principalmente por teólogos modernos: julgam, sim, que na hora da morte o Senhor ilumina a mente de toda e qualquer criatura humana, a fim de que conceba clara idéia de Deus e consequentemente opte, com pleno conhecimento de causa, por ou contra o Senhor Deus; a clarividência assim outorgada, acrescentam, poderia mesmo ser tal que provoque necessariamente a conversão do pecador para Deus.

O primeiro esboço de tal hipótese parece ter sido proposto no século XIV:

«Todo ser humano, adulto ou não, Sarraceno, Judeu ou pagão, mesmo que morra no seio materno, recebe, antes da morte, a clara visão de Deus; sob esta visão conserva a liberdade de se converter ao Senhor ou de se afastar d'Ele; caso se volte para Deus, salva-se; na hipótese contrária, condena-se».

A proposição assim concebida foi condenada em 1368 por Simão Langham, arcebispo de Cantuária (este pronunciamento porém, não significava condenação da tese por parte do magistério infalível da S. Igreja).

No séc. XIX o teólogo alemão Klee formulou semelhante hipótese para o caso das crianças que morram sem batismo: Deus as iluminaria na hora da morte, de modo a poderem conceber ao menos o desejo do batismo (Katholische Dogmatik III. Mogúncia 1835, 119). A sentença foi repetida com ligeiras inovações por Karl-Maria Mayrhofer em 1851 e por Laurent em 1879. Dom Démaret incluiu na sentença o caso mesmo dos adultos (cf. «Les morts peu rassurantes, motifs d'espérance et de prière». Montligeon 1923).

Sob qualquer das suas modalidades, tal sentença se apresenta pouco verossímil. Não somente não se lhe pode apontar fundamento na Escritura Sagrada ou na tradição oral, mas ao contrário parece pouco condizente com as palavras de Cristo e dos Apóstolos que exortam os discípulos à vigilância continua a fim de não incorrerem em ruína eterna; cf. Mt 24,42.44 ; 25,13; Lc 12,39s; 21,34; 1 Tes 5,2.6; 2 Pdr 3,14; Apc 3,3; 16,15.

De resto, a confiança do cristão na Providência Divina é suficientemente firme para que se possa dispensar de pedir apoio a doutrinas novas e pouco seguras.


 A intercessão de Nossa Senhora na hora da morte

"Rogai por nós pecadores, agora... e na hora de nossa morte". Qual a razão de tanta insistência em pedir que Maria nos assista no fim de nossa vida?
Na oração que tantas vezes dirigimos a Nossa Senhora há duas partes distintas, as quais convém analisar: uma diz respeito ao presente, a outra ao futuro. A primeira muda continuamente no que diz respeito ao tema do pedido; a segunda não varia, roga sempre a mesma graça.
MADONA.JPG
A intercessão de Maria Santíssima nos é tão
necessária quanto eficaz na hora da morte.
Como são felizes as almas assistidas
por Ela nessa hora!


"Madona del Pilastro"
 Basílica de Santo Antônio, Pádua - Itália
Rogai por nós agora é o pedido da hora presente, cujo objeto será diferente conforme nossas necessidades. Por vezes será a solicitação de uma graça protetora, outras vezes de consolo, às vezes de alívio e de cura de alguma enfermidade.
Mas, rogai por nós na hora de nossa morte diz respeito ao futuro, e é sempre o mesmo pedido que fizemos ontem, fazemos hoje, repetido 200 vezes no Rosário, e voltaremos a fazer amanhã, se Deus nos conceder um novo dia e se nele rezarmos a Saudação Angélica.
Então, por que a Santa Igreja, por meio da Ave Maria, oração quotidiana e familiar a todos os cristãos, até mesmo aos mais indiferentes, formulou este pedido: Rogai por nós na hora de nossa morte? Só pode ser por razões muito dignas de sua sabedoria; é porque na hora da morte a intercessão da Santíssima Virgem Maria nos é soberanamente necessária e em extremo eficaz.
Necessidade da assistência de Maria nos derradeiros momentos
Para compreender bem quão necessária é a assistência de Nossa Senhora em nossos derradeiros momentos, deve-se lembrar que a hora da morte é propriamente a hora decisiva e difícil entre todas. Nela será fixado nosso destino para toda a eternidade. Quando cai uma árvore, à direita ou à esquerda, lá onde cai, fica, bem diz o Eclesiastes (11, 3). Se cair para o lado certo, se morrermos na graça de Deus, seremos felizes para sempre; mas se cair do lado errado, se morrermos na inimizade de Deus, nosso lugar será junto aos réprobos. A hora da morte é a hora do combate supremo. Se triunfarmos do demônio, todas as nossas derrotas passadas serão reparadas, seremos vitoriosos para sempre, tomaremos lugar entre os eternos triunfadores e o Rei do Céu nos cingirá com a coroa da glória eterna.

Vejamos o bom ladrão. Sua vida estava manchada por vários crimes. Tinha sido um infame criminoso que tingiu suas mãos no sangue de irmãos; alguns instantes antes de morrer, se arrependeu, foi perdoado, seus crimes foram apagados e - qual piedoso ladrão do Céu, como é chamado -, por um instante de sincera penitência, foi compartilhar as alegrias do Paraíso com os patriarcas e os profetas que passaram a vida inteira na prática de boas obras.

Se, pelo contrário, no último momento, nosso inimigo, o demônio, triunfar sobre nós, nossas vitórias já adquiridas, por mais numerosas ou retumbantes que tenham sido, nos serão inúteis. Nossas boas obras, embora tivéssemos vivido como justos durante longos anos, estariam perdidas para sempre e se volatilizariam como simples nuvem dispersa pelo vento. Ficaríamos como navegadores que, após triunfarem sobre várias tempestades em alto mar, vêm soçobrar no próprio porto de chegada.
Uma trágica defecção de última hora
Lembremos-nos da história dos 40 mártires de Sebaste. Eram 40 soldados que, juntos, nas tropas do exército romano, travaram inúmeros combates nesta terra, além de ganharem combates no Céu, pela prática das virtudes cristãs, sob o estandarte de Jesus Cristo. Para defenderem a Religião, compareceram diante do tribunal de seus perseguidores, confessando valentemente sua fé, sem se deixarem intimidar por ameaças nem seduzir por promessas. Foram todos jogados no calabouço e condenados a morrer num lago gelado. Os anjos já os sobrevoavam, trazendo nas mãos as coroas destinadas a esses gloriosos atletas, quando um deles, vencido pelo frio, saiu do lago para um banho de água morna preparado com vistas à desistência de algum deles. Pouco depois ele morreu (devido à mudança brusca de temperatura), perdendo por um instante de fraqueza os frutos de uma longa vida passada no exercício das virtudes, os méritos reluzentes de sua confissão de fé e a glória de um martírio quase consumado, deixando seus companheiros imersos na incomparável dor de sua defecção.

A hora da morte é uma hora decisiva, mas é também uma hora difícil.
Angústias dos moribundos
Como são atrozes as angústias dos moribundos, que não tenham perdido completamente a fé, quando os remorsos da consciência, o temor do julgamento iminente e a incerteza quanto à salvação eterna se unem para enchê-los de perturbação e pavor! Os demônios redobram de raiva para agarrar essa presa que lhes escapa. Acorrem numerosos em torno da cama do doente para tentar um supremo esforço.

Pudesse ainda o moribundo reagir na plenitude de suas forças! Mas não pode! Nunca terá sido atacado com tanta violência e jamais esteve tão fraco para se defender. A deficiência do corpo provoca um desastroso contragolpe na alma. A imaginação fica de todo desordenada. É como se fosse um campo aberto que os animais selvagens - melhor seria dizer fantasmas dos mais lúgubres e dos mais espantosos - atravessam livremente em todas as direções. O espírito fica repleto de trevas, a vontade sem energia e cheia de languidez.
Necessidade imperiosa do auxílio de Deus na hora da morte
Como o socorro de Deus é necessário nessa hora! Quão indispensável é a graça divina para perseverar! Entretanto, a graça, sobretudo a graça da perseverança final, é um dom de Deus que não nos é dado merecer, mas podemos obter infalivelmente pelas nossas orações.

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Nossa Senhora com o Menino Jesus
Catedral de Boston - USA 
Ora, como por um privilégio todo especial de Deus, o qual quer assim honrar sua Mãe, a Santíssima Virgem é a Medianeira obrigatória por cujas mãos todos os favores do Céu devem passar, a Ela é que devemos pedir esta graça das graças. Compreendamos então por que a Santa Igreja nos leva a pedir tantas vezes a assistência de Maria Santíssima para a hora de nossa morte. Compreendamos também o motivo pelo qual ela nos incita a repetir todos os dias: Santa Maria, rogai por nós na hora de nossa morte.
Nessa hora, intercessão infalível de Maria Santíssima
A intercessão de Maria Santíssima nos é tão necessária quanto eficaz nessa suprema e solene circunstância. Como são felizes as almas assistidas por Maria nessa hora! Elas não podem perecer. Ainda que estejam cativas da tirania do demônio, esta boa Mãe romperá seus grilhões e lhes obterá os frutos benfazejos de uma sincera conversão, instando-as a fazerem verdadeira penitência. Lá estará Ela perto de seu leito de dores, como uma mãe à cabeceira do filho moribundo, dissipando suas angústias, acalmando suas dores, adoçando suas penas, proporcionando uma santa paciência e tomando sua defesa ante os ataques furiosos e múltiplos do espírito das trevas.

Quando chega a derradeira hora de algum devoto de Nossa Senhora, diz São Boaventura, esta boa Mãe lhe envia os espíritos angélicos que estão às suas ordens, juntamente com São Miguel, seu chefe. E Ela, que é o flagelo do inferno - como diz São João Damasceno - Ela que tem, por missão, o ódio à serpente infernal, lhe faz sentir, sobretudo quando algum de seus devotos vai abandonar este mundo, todo o seu vitorioso poder. Ela é para o demônio, nessa ocasião, terrível como um exército em ordem de batalha. Torna-se contra ele como essa torre da qual fala o Cântico dos Cânticos, onde mil escudos estão levantados com as armas dos mais valorosos.

Não, um servidor de Maria não pode perecer! - declara São Bernardo. - Não, aquele por quem Maria se dignou rezar não pode mais ter dúvida de sua salvação e de sua ida à glória do Céu! - diz Santo Agostinho.

Não, aquele pelo qual Maria rezou uma vez não perecerá! Não, quem recitou piedosamente todos os dias a Ave Maria não será abandonado na última hora! - exclama também Santo Anselmo. Esta oração possui todas as qualidades capazes de torná-la infalivelmente vitoriosa.

Em primeiro lugar, ela é santa em sua motivação. Com efeito, o que pedimos por ela? A perseverança final "na hora de nossa morte". Depois, ela é humilde. Por ela confessamos a Maria Santíssima nossa miséria, revestindo-nos de um título que nos convém tão bem: "pobres pecadores".

Ela é também confiante, pois nos dirigimos à mais poderosa intercessora que possa haver, Àquela que é chamada de "Onipotência suplicante", em vista de sua santidade proeminente e de sua dignidade incomparável de Mãe de Deus: "Santa Maria, Mãe de Deus".

Esta oração é perseverante. Qual oração pode ser mais perseverante? Ainda que, por suposição, só rezássemos uma Ave Maria por dia, quantas vezes durante nossa vida teríamos pedido a Ela para interceder por nós na hora da morte? E como será então se rezarmos ao menos uma dezena do Rosário? Mais ainda se tomarmos o costume de rezar diariamente um terço inteiro? Será possível que Maria Santíssima, tão zelosa de nossa salvação, não nos ouça? Não! Isso é impossível! A isso se opõem as promessas, os juramentos de Jesus Cristo Nosso Senhor relativos à oração, assim como a bondade e a ternura de sua Mãe Santíssima.

Tomemos, pois, a resolução de rezar todos os dias de nossa vida, com uma nova fé, uma nova confiança e um novo cuidado, esta curta mas tão bela e eficaz oração da Ave Maria. Assim obteremos a cada dia aquelas graças particulares das quais precisamos e, sobretudo, a graça necessária no fim da vida, a maior delas, a mais importante de todas as graças, a graça da perseverança final.
Santo André Avelino
Segundo se narra, na hora da morte de Santo André Avelino, um grande servo de Maria, seu leito estava envolto por mais de dez mil demônios; durante sua agonia, ele teve de travar contra o inferno um combate tão terrível que deixou estupefatos todos os religiosos ali presentes. Viram seu rosto decompor-se e ficar lívido. Ele tremia em todos os seus membros, rangia os dentes, lágrimas abundantes corriam-lhe pela face, testemunhando a violência do assalto ao qual estava sujeito. O espetáculo arrancou lágrimas de todos os assistentes. Cada qual redobrava as orações e tremia por si, ao ver um santo morrer dessa maneira. Uma única coisa consolava os religiosos: o moribundo muitas vezes voltava o rosto para uma imagem da Virgem, indicando assim pedir seu socorro e lembrando- lhes ter dito várias vezes durante a vida que Maria Santíssima seria seu refúgio na hora da morte.

Afinal, aprouve a Deus pôr um término a esse combate, outorgando ao santo a mais gloriosa vitória. As agitações cessaram, o rosto do moribundo retomou sua serenidade primeira; viram- no permanecer tranqüilo, mantendo o olhar em direção à imagem, inclinar-se em sinal de reconhecimento e, em seguida, expirar docemente nos braços da Santíssima Virgem, que ele tanto invocara em vida e que vinha fazê-lo sentir sua todo-poderosa proteção naquele supremo momento.

Imitemos a devoção de Santo André Avelino e, como ele, em nossa última hora seremos assistidos e socorridos pela misericordiosíssima Rainha dos Céus.
(Tradução, com adaptações, de "L'Ami du Clergé" nº 39, de 23/9/1880)
(Revista Arautos do Evangelho, Maio/2007, n. 65, p. 34 à 36)
  
ORAÇÃO PELA PERSEVERANÇA FINAL

Senhor, estamos envolvidos em tua dor...
e seguimos rumo ao nosso calvário...
Para contigo também ressuscitarmos.
Desse modo, aceitamos nossa cruz...
e renunciamos a nós mesmos...
e a tudo o que nos induz aos erros da desobediência e rebeldia...
Para sermos solidários com todos os que aqui padecem a agonia...
Patrocinada pelos macabros tiranos deste mundo...

Senhor, de que adianta ganhar o mundo inteiro se viermos perder a vida?
Quantos não se questionam assim e por isso seu fim é sempre trágico?
Porque não querem viver na obediência aos mandamentos de tua Lei que nos são proteção, salvação, vida eterna...
Mas querem viver nas badernas da maldade, na contra mão da verdade, cultivando uma pretensa liberdade que jamais o pecado mortal lhes pode dar...

E o resultado de tudo isso, Senhor, é a condenação dos justos teus servos aos suplícios temporais mais horrendos por defenderem uma vida íntegra, digna, justa e honesta...
Por não se enlamearem nas fétidas e espúrias doutrinas a que os ímpios chamam “politicamente corretas”; que na verdade não passam de agressões à natureza humana e aos bons e santos costumes cristãos...

Ora, bem nos exortou são Paulo sobre isso quando disse: “Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te!” (2Tim 3,1-5).

Por isso Senhor, dá-nos perseverança para vivermos a fé em Ti genuinamente e não temermos as ciladas do inimigo de nossas almas...
Dá-nos vencer os inimigos da fé e detratores das verdades eternas...
E se for para sofrermos o martírio, livra-nos do perigo de recusarmos esse intento...
Pedimos-te ainda humildemente, dá-nos teu sublime alento para sofrermos por Ti até o fim sem jamais esmorecermos...
Que seja esse Senhor o nosso único desejo, servir e amar a Ti e ao teu Reino de todo o nosso coração, proteja-nos a tua mão agora e para sempre. Amém!

Paz e Bem!