terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Igrejas anglicanas da Suécia promovem “Jesus sem gênero” para promover inclusão


Cristãos se revoltam por igreja "corroer" o conceito de Trindade, adotando um pronome neutro


Igrejas da Suécia promovem "Jesus sem gênero" para promover inclusão
 
 
No mês passado, a liderança da Igreja Nacional da Suécia, de confissão luterana, sugeriu que as referências masculinas a Deus – chamado tradicionalmente pelos pronomes “Ele” e “Senhor” – deviam ser descartadas em detrimento de uma linguagem mais “inclusiva”.
A maior denominação do país publicou seu novo “Manual da Igreja”, que estabelece como serão feitos cultos, batismos, casamentos e funerais. Nele, os pastores e bispos são instruídos a referir-se a Deus de “uma maneira neutra”. Ou seja, Deus deve ser chamado tanto de “Mãe” quanto de “Pai” nas orações.
Mas algumas igrejas passaram agora a usar o pronome neutro “hen” para falar também sobre Jesus. Elas defendem que a opção por esta palavra dá uma “nova perspectiva” sobre a figura central do cristianismo.
Existe um movimento dentro da denominação para que isso seja revertido, destacando que não é uma questão de gramática, mas de teologia, pois ‘corrói’ o conceito de Trindade e “politiza a fé”, trazendo para a Igreja um debate que ocorre no país por causa da ampla aceitação dos trangêneros, sendo que muitos pedem para serem tratados por ‘hen’. Nesses casos, ela serve para falar de alguém cujo gênero não é conhecido.
Quando uma igreja na cidade de Vasteras usou o termo neutro para referir-se a Jesus no material que convidada para o culto de Natal, a questão passou a ser debatida nacionalmente. A líder da igreja Susann Senter e o bispo de Vasteras Mikael Mogren foram obrigados a se explicar.
Em uma declaração publicada esta semana, eles dizem reconhecer que Jesus era homem, mas que “o gênero não é o principal aspecto de sua identidade”. Afirmam ainda que as pessoas podem continuar o termo “tradicional”, enquanto “essa nova ideia pode ser abraçada” por quem sentir-se mais confortável. O objetivo seria apenas promover uma “inclusão maior”.
Numa demonstração típica da teologia liberal que toma conta das igrejas europeias, o bispo Mogren destacou que esse debate é positivo e que, ninguém deveria insultar as pessoas transgêneros durante as discussões, pois “os trans foram criados por Deus, seus corpos pertencem à bela e extraordinária criação de Deus”.
“Essa discussão me obriga a declarar o óbvio: Jesus compartilha a vida de todo ser humano, não apenas dos homens”, insistiu. Finalizou lamentando que a igreja ocidental esteja presa a “estruturas patriarcais” que ainda oprime as mulheres e nega identidades de gênero além de homem e mulher. Com informações de The Local

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Aparição” e “Revelação Particular”?

EPIFANIAS SÃO acontecimentos inexplicáveis e raros. São aparições através das quais a Graça de Deus se manifesta e nos exorta a permanecer no Caminho, que é Cristo, e guardar a Fé.
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Revelação Natural e Revelação Sobrenatural

Atesta a Sagrada Escritura que Deus nunca cessou de se interessar, por assim dizer, pelos seres humanos, nem de se manifestar a nós: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus, outrora, aos nossos pais, pelos Profetas; agora, nestes dias, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1-2)... Deus é Amor (1Jo 4,8) e quer partilhar vida e felicidade com seus filhos e filhas; por isso, se revela de muitas maneiras.

“Revelar” quer dizer “retirar o véu” para dar-se a conhecer. Desde a origem do mundo, Deus dá-se a conhecer por meio das coisas criadas, que, em sua beleza e harmonia, são um testemunho perfeito da Bondade do Criador, como diz São Paulo: “O eterno Poder e Divindade de Deus, desde a criação do mundo, são claramente vistos e percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1, 19-20). Assim, em todo o mundo, mesmo aqueles que nunca ouviram falar em Jesus Cristo podem “reconhecer” Deus, ao menos como Sumo Bem, Princípio e Fim de todas as coisas, através da razão natural (Conc. Vaticano I: DS 3004; DV 6; CIC §36).

Além dessa capacidade que o Criador concedeu naturalmente a todos os homens, de conhecê-lo através de sua Criação, Deus, que "habita em Luz inacessível” (1Tm 6,16), comunica-se aos homens também de maneiras muito especiais e bem mais raras. Para isso, escolheu Abraão, em quem foram abençoadas todas as nações da Terra (Gn 12, 3); depois, tornou Israel o seu povo, revelando-se a este de maneira particular, para que a partir deste povo viesse ao mundo a salvação.

Esta comunicação mais direta de Deus realizou-se plenamente na Encarnação do Verbo, Jesus Cristo: “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não haverá outra Palavra senão esta” (CIC §65). Por isso, “já não há que se esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Cristo no final dos tempos” (DV 4). Essa Revelação especial está registrada nas Sagradas Escrituras e é garantida pela Assistência do Espírito Santo, que conferiu aos Escritores Sagrados os carismas extraordinários da Revelação e da Inspiração. Dessa maneira é que dizemos que a Bíblia, embora escrita por homens diversos, é “Palavra de Deus”.

Por outro lado, embora a Revelação esteja dada por completo e definitivamente, ela não está totalmente compreendida; cabe a toda a Igreja captar, gradualmente, todo o seu alcance, ao longo dos tempos. É nesse sentido que devemos entender o desenvolvimento dos dogmas na Igreja: não se tratam de novas revelações, mas de um aprofundamento, um desabrochar das verdades já contidas no Depósito da Fé. – Lembrando que o Depósito da Fé é o patrimônio sagrado da fé cristã, contido na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição, confiado aos Apóstolos (Magistério da Igreja) por Jesus Cristo e, por eles, à totalidade da Igreja. A Verdade eterna não muda; nossa compreensão a respeito desta Verdade é que pode e deve aperfeiçoar-se cada vez mais.


Revelações Particulares
No correr dos tempos houve revelações denominadas “particulares”, e algumas delas foram e têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, porém, ao Depósito da Fé. Sua função não é “melhorar” ou “completar” a Revelação de Cristo, que é definitiva, mas sim ajudar a vivê-la com mais plenitude, em determinadas épocas da História.

Essas revelações constituem, isto sim, um apelo de Cristo ou de seus santos à Igreja (§CIC 67). É o caso, por exemplo, das aparições de Maria Santíssima em Salete, Fátima, Lourdes ou Guadalupe. Importante notar que o termo “revelação particular” não quer dizer que tais revelações não possam ser conhecidas do povo, ou que digam respeito apenas aos videntes ou a um círculo limitado de pessoas: pelo contrário, podem ser fenômenos de repercussão nacional ou mesmo mundial. No entanto, tais revelações são ditas “particulares” porque não fazem parte do Depósito da Fé universal, isto é, católica. Em outras palavras, nenhum católico está obrigado a aceitá-las, mesmo quando já consagradas pela devoção do povo.

Fundamental: “A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou 'corrigir' a Revelação da qual Cristo é a Perfeição. Este é o caso de certas religiões não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais ‘revelações’” (CIC 67), o que se aplica, por exemplo, aos mórmons e espíritas.



Avaliação das Aparições

Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os fenômenos de aparições atribuídas a Nossa Senhora, em diversas partes do mundo (inclusive no Brasil). A respeito de tais fenômenos, existem sempre opiniões favoráveis e opiniões contrárias. O que a Igreja, oficialmente, tem a dizer a respeito?

A Igreja é cautelosa, como deve ser; antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, procede a um exame criterioso dos fatos, pois muitas vezes os fiéis, mesmo com toda piedade e boa fé, podem sofrer alucinações, “ver” e “ouvir” projeções mentais. É preciso levar em conta os desvios do psiquismo e a fragilidade humana, sujeita ao engano, aos delírios, etc. Além disso, quem conta um fato facilmente acrescenta ou subtrai algum detalhe que pode ser importante; é assim que um acontecimento estranho ou incomum, porém natural, torna-se “milagre” na boca dos narradores. Leve-se em conta, também, a tendência dos meios de comunicação de massa, de provocar as emoções fáceis do público e o sensacionalismo, sem compromisso com a verdade. Por isso é que se faz necessária toda prudência.

Carta Pastoral sobre
REVELAÇÕES PARTICULARES E APARIÇÕES
Ao clero e aos fiéis de toda a Igreja Particular de São José dos Campos. Graça e paz da parte do Senhor Jesus Ressuscitado!
INTRODUÇÃO Visto que muitos de nossos diocesanos e diocesanas insistentemente nos pedem uma palavra de esclarecimento a respeito de aparições, possíveis revelações particulares e alocuções interiores, as presentes Orientações Pastorais, assim o esperamos, deverão servir de base para o posicionamento de nossos queridos diocesanos sobre esses assuntos.
1. REVELAÇÃO NATURAL E REVELAÇÃO SOBRENATURAL
"Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos" (Hb 1,1-2).
"Deus é amor" (1 Jo 4,8), e quer livremente partilhar com os homens Sua vida e felicidade. Por isso, Deus se revela. Revelar quer dizer levantar o véu. Desde a origem do mundo, Deus se dá a conhecer, por meio das coisas criadas que, em sua beleza e harmonia, são um testemunho perene da bondade do Criador (cf. Rm 1,19-20). "Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu senso do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus" (CIC 33), de modo que em toda parte, mesmo os que nunca tiveram contato com as Sagradas Escrituras nem ouviram falar de Jesus Cristo, podem conhecer a Deus como princípio e fim último de todas as coisas à luz da razão natural (Concílio Vaticano I: DS 3004; DV 6; CIC 36).
Além desta revelação natural, "Deus, que ‘habita uma luz inacessível’ (1 Tm 6,16), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens" (CIC 52). "Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1,19), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2 Pd 1,4)" (DV 2; CIC 51). Para isso, Deus escolhe Abraão, em quem serão abençoadas todas as nações da terra (cf. Gn 12,3). "Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, através de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro" (CIC 62). A esse povo, através dos patriarcas e profetas, Deus se revela de maneira particular, para que fosse "a raiz sobre a qual serão enxertados os pagãos tornados crentes" (CIC 60; cf. Rm 11,17-18.24). Esta autocomunicação de Deus na história tem na Encarnação do Verbo a sua plenitude. "Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não haverá outra palavra senão esta" (CIC 65). Por isso, "já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação" de Cristo no final dos tempos (cf. DV 4). Esta revelação especial ou sobrenatural está consignada nas Sagradas Escrituras, sendo garantida em sua infalibilidade por uma assistência especialíssima do Espírito Santo, que conferiu aos Hagiógrafos ou Escritores Sagrados os carismas extraordinários da revelação e da inspiração. Desta maneira, podemos dizer que a Bíblia, embora escrita por homens os mais diversos, é de fato Palavra de Deus.
Por outro lado, "embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos". É neste sentido que devemos entender o desenvolvimento do dogma na Igreja: não se trata de novas revelações, mas de um aprofundamento, um desabrochar de verdades já contidas no depósito da fé.
2. REVELAÇÕES PARTICULARES
"No decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela com mais plenitude em uma determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (CIC 67). É o caso, por exemplo, das aparições da Mãe de Deus em Fátima ou Lourdes. Note-se que o nome "revelação privada" não quer significar que tais "revelações" não sejam conhecidas pelo grande público, ou que digam respeito apenas aos videntes ou a um círculo limitado de pessoas. Pode se tratar de um fenômeno de repercussão nacional ou mesmo mundial. No entanto, tais possíveis "revelações" são ditas, ainda assim, "privadas" ou "particulares" porque não fazem parte do depósito da fé católica. Em outras palavras, nenhum católico está obrigado a aceitá-las, mesmo quando já consagradas pela devoção do grande público, ao contrário do que acontece com a revelação especial, tal como nos é apresentada nas Sagradas Escrituras e transmitida pelo magistério da Igreja. Neste caso, todo católico tem a obrigação de acatar tudo o que a Igreja propõe como verdade de fé e de moral.
"A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição. Este é o caso de certas Religiões não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais ‘revelações’" (CIC 67), como é o caso, por exemplo dos Mórmons ou do Espiritismo.
3. PRÁXIS OBSERVADA PELOS BISPOS E PELA SÉ APOSTÓLICA NA AVALIAÇÃO DO FENÔMENO DAS APARIÇÕES
Ultimamente, tem-se multiplicado o fenômeno de aparições atribuídas a Nossa Senhora, tanto no Brasil como no estrangeiro. A respeito de tais fenômenos, existem opiniões favoráveis e opiniões contrárias. O que a Igreja tem a dizer?
A Igreja é cautelosa; antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, manda examinar o caso criteriosamente, pois sabe que muitas vezes os fiéis, com toda boa fé, podem imaginar estar vendo e ouvindo o que não passa de projeções de sua fantasia.
Não existe legislação canônica sobre a avaliação do fenômeno das aparições e manifestações miraculosas. O Direito Canônico cala sobre o assunto. O que existe é uma práxis observada pelos bispos e pela Sé Apostólica. Os critérios básicos são os seguintes1:
a) Critérios a respeito dos videntes:
  • Deve ser verificado o estado de saúde física e mental dos videntes por parte de médicos competentes e psicólogos ou psiquiatras a fim de que não se confunda alucinação com visão.
  • É importante verificar se há falta de sinceridade e de humildade da parte dos videntes, se há interesse em tirar proveito próprio ou em se colocar no centro das atenções.
  • Verificar os contra-testemunhos que os videntes apresentam na vida cotidiana, a falta de respeito e de obediência aos pastores, a exploração das emoções com objetivos comerciais, políticos ou outros interesses.
  • O objetivo de qualquer revelação autêntica é a edificação da Igreja. Por isso, tudo o que a divide, tudo o que leva ao pecado, tudo o que não leva à evangelização não pode vir de Deus.
"Os videntes deixam de ter credibilidade a partir do momento em que procuram sustentar com apoio celestial, portanto, com autoridade pretensamente superior à da Igreja, uma certa orientação doutrinária, da qual se estivesse convencido; ou então promover mais facilmente certos aspectos da vida cristã, como os sacramentos, valendo-se da tendência das massas para o maravilhoso"2. b) Critérios a respeito da mensagem transmitida pela aparição
São basicamente três os critérios a serem indicados aqui:
  1. Ortodoxia: o conteúdo da mensagem das aparições não pode estar em contradição com a revelação bíblica, nem com a doutrina da Igreja.
  2. Convergência: O conteúdo da mensagem deve estar em sintonia com as linhas pastorais da Igreja e os pastores podem encontrar nessa mensagem matéria para incentivar a vida pastoral e a conversão e renovação da vida cristã.
  3. Coerência: Deve haver uma coerência entre o que os videntes vêem, ouvem e dizem. O conjunto deve formar uma mensagem coerente.
Além disso, toda autêntica aparição há de ser coerente com as linhas e o espírito do Evangelho. Assim, as muitas minúcias (quanto a datas, local, duração e tipo dos fenômenos preditos) merecem reservas, pois não são habituais na linguagem da Sagrada Escritura. O Senhor Jesus mesmo recusou-se, mais de uma vez, a revelar a data de sua vinda e do fim dos tempos (cf. Mc 13,32; At 1,7). c) Critérios a respeito das ressonâncias da aparição
  1. Sinais: O fenômeno pode estar acompanhado de milagres, curas, conversões, fenômenos cósmicos extraordinários em favor da veracidade da aparição, os quais, porém, devem ser cuidadosamente examinados pela ciência e pela teologia. E como dizia o Papa João XXIII, em sua radiomensagem de 18/02/1959, comemorativa do centenário de Lourdes, que os dons extraordinários são concedidos aos fiéis "não para propor doutrinas novas, mas para guiar nossa conduta"3.
  2. Frutos: Que Frutos espirituais estão surgindo em decorrência da aparição? Trata-se de conversões, renovação da vida cristã, devoção mais intensa e mais qualificada a Nossa Senhora, amor à Igreja, vocações missionárias, sacerdotais e consagradas?
Caso o resultado dos exames acima sejam positivos, a Igreja não somente permite, mas favorece o culto ao Senhor ou ao santo(a) que se julga ter aparecido. É o caso do culto a N. S. de Fátima ou de Lourdes, havendo inclusive a festa respectiva no calendário da Igreja. Importante: embora a Igreja favoreça o culto a Nossa Senhora em tal ou tal lugar, ela não obriga os fiéis a acolher as respectivas revelações particulares, uma vez que elas não fazem parte do depósito da fé: fica a critério de cada fiel julgar as razões pró e contra a autenticidade de cada "aparição" não condenada pela Igreja e daí assumir ou não sua mensagem para a própria vida. A respeito de tais fenômenos extraordinários, o Papa Bento XIV (1740-1758) publicou o seguinte: "A aprovação (de aparições) não é mais do que a permissão de as publicar, para instrução e utilidade dos fiéis, depois de maduro exame. Pois estas revelações assim aprovadas, ainda que não se lhes dê nem possa dar um assentimento de fé católica, devem contudo ser recebidas com fé humana segundo as normas da prudência, que fazem de tais revelações objeto provável e piedosamente aceitável"4. Esta posição tornou-se clássica na prática da Igreja.
Pode acontecer ainda que a Igreja se abstenha de qualquer pronunciamento a respeito dos fenômenos e do culto prestado em decorrência dos mesmos. É o que acontece na maioria dos casos: não há motivos para condenar os fenômenos relatados; nem a saúde mental dos (as) videntes dá lugar a suspeitas nem as mensagens apresentadas por eles contêm alguma heresia ou erro na fé. A Igreja considera os frutos pastorais que decorrem de tais mensagens: muitos fiéis se beneficiam peregrinando a tal ou tal lugar ou santuário; aí se convertem, recuperam ou adquirem o hábito da prática sacramental, da oração... Por tudo isso, a Igreja deixa que a piedade se desenvolva até haver razões de ordem doutrinária ou moral que exijam algum pronunciamento.
Diante dos fenômenos de aparições e revelações particulares, a Igreja tem a obrigação de ser prudente. Ela é responsável pela preservação da doutrina da fé. Por um lado, ela sabe que o Espírito Santo pode falar por vias extraordinárias, de tal modo que não lhe é lícito extinguir o Espírito (cf. 1 Ts 5,19s); por outro lado, o extraordinário não é a via normal pela qual Deus guia seus filhos. A fé madura não diz Sim a qualquer notícia sobre portentos, prodígios e milagres, mas pergunta sempre: por que deveria eu crer? Qual a autoridade de quem me transmite a notícia? Em que se baseia? Como fala?
Do que foi dito, segue que:
  1. Aparições e revelações particulares não devem ser presumidas nem admitidas em primeira instância num juízo precipitado. Os fenômenos alegados hão de ser comprovados ou criteriosamente credenciados;
  2. Diante de um fenômeno tido como extraordinário, procurem-se, antes do mais, as explicações ordinárias ou naturais (físicas, psicológicas, parapsicológicas);
  3. É preciso levar em conta a fragilidade humana, sujeita a engano, sugestões, alucinações coletivas, etc. Facilmente quem conta um fato acrescenta-lhe ou subtrai-lhe um traço que pode ter importância; em conseqüência, um acontecimento explicável por vias naturais pode tornar-se, na boca dos narradores, um fenômeno altamente portentoso. Daí o senso crítico, que deve começar por investigar de que realmente se trata, para depois procurar a explicação adequada. Leve-se em conta especialmente a tendência dos meios de comunicação social a provocar artificiosamente as emoções e o sensacionalismo, sem compromisso sério com a verdade.
4. ORIENTAÇÕES PASTORAIS A Diocese de São José dos Campos, na pessoa de seu Bispo Diocesano, apresenta as seguintes orientações para a prática do povo de Deus:
  1. Não se faça, em nome de Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, lotações para afluírem aos locais de supostas aparições.
  2. Não se divulgue nas Pastorais, Movimentos e Espiritualidades, folhetos, apostilas, fitas cassete ou vídeos com mensagens de cunho milenarista, apocalíptico ou catastrófico.
  3. Seja mantida a devida prudência com relação aos escritos de pessoas que teriam a faculdade de locução interior. O devido cuidado deve ser tomado de não colocá-los em forma de leitura espiritual como substituto ou auxiliar da Palavra de Deus.
  4. Cada coordenador tenha como referência, para orientações com relação a esta temática, além das presentes orientações, os Subsídios Doutrinais 1 da CNBB, intitulado "Aparições e revelações particulares".
  5. Em última instância, prevaleça sempre a palavra do Bispo Diocesano.
CONCLUSÃO Gostaria de terminar essas orientações pastorais, recordando o que nos ensina o Vaticano II sobre o culto da Bem-aventurada Virgem, o qual admoesta todos os filhos e filhas da Igreja "a que generosamente promovam o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-aventurada Virgem, dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo Magistério no curso dos séculos e observem religiosamente o que em tempos passados foi decretado sobre o culto das imagens de Cristo, da Bem-aventurada Virgem e dos Santos" (LG 67).
"Ademais, saibam os fiéis que a verdadeira devoção não consiste num estéril e transitório afeto, nem numa certa vã credulidade, mas procede da fé verdadeira pela qual somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, excitados a um amor filial para com nossa Mãe e à imitação das suas virtudes" (ib.,67);
Enquanto peregrinamos, Maria será a mãe educadora da fé (cf. LG 63). Ela cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade (cf. Puebla, 290).
Como pastor da Diocese de São José dos Campos, envio a todo o Povo de Deus que aqui peregrina, minha saudação e a bênção em Cristo Ressuscitado.
Decreto: Que esta Carta Pastoral seja afixada em lugar visível para os fiéis e publicada no Jornal Expressão.
São José dos Campos, 25 de março de 1996.
Dom Nelson Westrupp, SCJ
Bispo diocesano


  • Referências Bibliográficas:
    1. O documento de referência é uma nota confidencial da Congregação para a Doutrina da Fé, de 25 de fevereiro de 1978. Veja-se também: R. PANNET, Les Apparitions Aujourd’hui. 1988, p.145-146.
    2. Cf. C. I. GONZALEZ, Maria, Evangelizada, Evangelizadora. CELAM, Ed. Loyola, 1990, p.401-402.
    3. Cf. Pergunte e responderemos, setembro de 1995, p.392-393.
    4. De Servorum Beatificatione II, c.32,11.
  • Outras fontes de consulta: na elaboração deste documento, foram consultadas, entre outras, as seguintes fontes:
    • Aparições e Revelações particulares (Subsídios Doutrinais 1, CNBB), Ed. Paulinas.
    • Compêndio do Vaticano II (DV e LG).
    • Catecismo da Igreja Católica (CIC).
    • JOÃO PAULO II, Redemptoris Mater.
    • CARLOS IGNÁCIO GONZALES, Maria, Evangelizada e Evangelizadora, CELAM, Ed. Loyola., 1990.
    • ESTÊVÃO BETTENCOURT, OSB , Pergunte e Responderemos, setembro de 1995.
    • STEFANO DE FIORES, Dicionário de Mariologia. Ed. Paulus, 1995.
    • DOCUMENTO DE PUEBLA.
Resumo

Aparições e revelações particulares não devem ser admitidas precipitadamente. Os fenômenos devem ser estudados e criteriosamente avaliados pela Igreja antes de dados como comprovados.

Como católicos, cremos que, enquanto peregrinos neste mundo, Maria será nossa mãe e educadora na fé (LG 63), sempre a cuidar para que o Evangelho nos penetre intimamente e produza em nós frutos de santidade (Puebla, 290).

A conversão de Voltaire???





O catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo em que documenta historicamente a conversão de um dos mais célebres inimigos da Igreja Católica.

UM 30 DE MAIO DO ANO 1778: A investigação de documentos antigos sempre mostra surpresas. A última me veio ao folhear o tomo XII de uma velha revista francesa, Correspondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793), monumento riquíssimo para conhecer o século do Iluminismo e o começo da Grande Revolução.
Todos sabemos quem foi Voltaire: o pior inimigo que teve o cristianismo naquele século XVIII, em que emitia críticas cruéis. Com os anos crescia seu ódio ao cristianismo e a Igreja. Era nele uma obsessão. Cada noite cria haver afastado a infâmia e cada manhã sentia a necesidade de voltar a declarar: o Evangelho só havia trazido desgraças sobre a Terra.
Manejou como ninguém a ironia e o sarcasmo em seus inúmeros escritos, chegando até o inominável e o degradante. Lhe chamaram de o anticristo. Foi o mestre de gerações inteiras incapazes de compreender os valores superiores do cristianismo, cujo desaparecimento prejudica e empobrece a humanidade.
Pois bem, no número de abril de 1778 da revista francesa acima citada (páginas 87-88) se encontra nada menos que a cópia da profissão de fé de M. Voltaire. Literalmente diz assim:
«Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir a igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na santa religião católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela.
Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo».
Assinam também: o abade Mignot, Villevielle. Acrescenta:
«Declaramos a presente cópia conforme a original, que foi entregue às mãos do senhor abade Gauthier e que ambos confirmamos e que ambos temos firmado, como firmamos o presente certificado. Paris, 27 de maio de 1778. Abate Mignot, Villevielle».
Que a relação pode estimar-se como autêntica o demonstram outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista – nada clerical, por certo-, pois estava editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas.


Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como “o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição”.
A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. A 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no sagrado o corpo de Voltaire. A 3 o prior responde ao bispo que seu aviso chega tarde, porque – efetivamente – já tinha sido enterrado na abadia.
A carta do prior é longa e muito interessante pelos dados que contêm. Eis o que mais nos interessa agora: a família pede que ele seja enterrado na cripta da abadia até que possa ser trasladado ao castelo de Ferney. O abade Mignot apresenta ao prior o consentimento firmado pelo pároco de São Suplício e uma cópia – assinada também pelo pároco – “da profissão de fé católica, apostólica e romana que M. Voltaire tem feito nas mãos de seu sacerdote, aprovado na presença de duas testemunhas, das quais uma é M. Mignot, nosso abade, sobrinho do penitente e outro, o senhor marquês de Villevielle (…) Segundo estes documentos, que me pareceram e ainda me parecem autênticos – continua o prior – penso que faltaria com meu dever de pastor se lhe houvesse recusado os recursos espirituais. (…)Nem me passou pelo pensamento que o pároco de São Suplício houvesse podido negar a sepultura a um homem cuja profissão de fé havia legalizado (…). Creio que não se pode recusar a sepultura a qualquer homem que morra no seio da Igreja (…) Depois do meio-dia, o abade Mignot tem feito na igreja a apresentação solene do corpo de seu tio. Cantamos as vésperas dos defuntos; o corpo permaneceu a noite toda rodeado de círios. Pela manhã, todos os eclesiásticos dos arredores (…) tem dito uma missa na presença do corpo e eu celebrei uma missa solene às onze, antes da inumação (…) A família de M. Voltaire partiu esta manhã contente das honras rendidas a sua memória e das orações que temos elevado a Deus pelo descanso de sua alma. Eis aqui os fatos, monsenhor, na mais exata verdade”.
Assim me parece que passou deste mundo ao outro aquele homem que empregou seu temível e fecundo gênio em combater ferozmente a Igreja.
A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao panteão de Paris – antiga igreja de Santa Genoveva – , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rosseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:
«Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens”.



Voltaire converteu-se na hora da morte?

(Revista Pergunte e Responderemos, PR 057/1962)
“Que há de certo sobre a morte de Voltaire? Ter-se-á finalmente convertido ao Catolicismo?”
François-Marie Arouet de Voltaire é um dos máximos cori­feus da Filosofia racionalista do séc. XVIII na França. Nascido em Paris aos 21 de novembro de 1694, veio a falecer aí aos 30 de maio de 1778. Empregou o seu talento satírico e seu apreciado estilo literário no combate à Igreja Católica; a sua atitude em relação a esta se exprime claramente no estribilho com que concluía muitas de suas cartas: «Aimez moi écrlinf» (em lugar de « … écrasez l’infame»), isto é, «Estimai a mim; esmagai, porém, a infame (a Igreja Católica)».
Depois de dominar o pensamento do seu século na qualidade de «Roi Voltaire» (rei Voltaire), terá morrido em trágicas circunstâncias: refere uma antiga versão que sofria atrozes dores físicas em seu leito de morte, às quais se associavam tremendas angústias de ânimo; vítima de furor e desespero, terá «comido os seus próprios excrementos e le­vado aos lábios o seu urinol, a fim de temperar a horrorosa sede que o atormentava». Isto tudo se haverá dado em castigo dos escárnios com que Voltaire tratava o Profeta Ezequiel; este, de fato, realizou gestos semelhantes a fim de predizer, de maneira dramática e simbólica, a extrema aflição e a miséria que haviam de acometer o povo de Israel no exílio (cf. Ez 4, 9-17). O filósofo francês, portanto, haverá morrido como viveu, isto e, na impenitência, proferindo imprecações e blasfê­mias contra Deus e a Igreja.
Eis, porém, que o periódico francês «Le Figaro Littéraire», em agosto de 1955, publicou cinco documentos recém-descober­tos por Jacques Donvez nos arquivos de um tabelião de Paris, documentos segundo os quais Voltaire em seu leito de morte terá retratado por completo os seus erros, fazendo, a seguir, uma con­fissão sacramental ao Pe. Gaultier (o jornal apresentava mesmo o «fac-simile» da retratação assinada por Voltaire e duas teste­munhas: o Pe. Gaultier e o Pe. Mignot, sobrinho do moribundo). Esta publicação naturalmente surpreendeu o público e provocou debates entre os historiadores, pois, enquanto uns afirmam que realmente Voltaire se converteu para a Igreja antes de morrer, outros guardam reservas nas suas conclusões, julgando que o teor dos documentos não é suficientemente claro para permitir tal asserção.
Contudo hoje em dia, após novo estudo dos textos e das fontes da história, já se pode reconstituir com certa segurança o trâmite dos acontecimentos que caracterizam o fim de vida de Voltaire: delimita-se assim o que há de certo e o que há de in­certo nesse setor. É a tal reconstituição que vamos agora proce­der, a fim de elucidar o caso na medida do possível.
1. O início da etapa final
Sabe-se que a última etapa da existência de Voltaire come­çou com a viagem que ele fez de Ferney para Paris, onde chegou aos 10 de fevereiro de 1778, tendo cerca de 84 anos de idade.
Desde os seus 27 anos não via mais a capital francesa; dessa vez ia visitá-la a convite de admiradores seus, que lhe queriam pro­porcionar o prazer de assistir à peça teatral da lavra de Voltaire mesmo: «Irene». A recepção foi apoteótica: acadêmicos, artis­tas, homens e mulheres nobres lhe prestaram todas as homena­gens; as ovações populares, retumbantes como eram, aclamaram em Voltaire «o protetor dos oprimidos, o apóstolo da tolerância universal»; um busto do filósofo foi coroado em vários teatros da capital. Depois da representação da tragédia «Irene», Voltaire interpelou o público nos seguintes termos: «Quereis sufocar-me debaixo das rosas!»
Até mesmo o embaixador Franklin, dos Estados Unidos, em Paris levou a Voltaire o seu netinho, o qual se ajoelhou diante do filósofo, pedindo-lhe a bênção. Voltaire estendeu então a mão sobre o menino, exclamando: «Deus e Pátria!». – São, porém, destituídas de funda­mento as noticias que falam de visita de bispos franceses ao corifeu racionalista.
Todo esse entusiasmo era talvez especialmente aguçado por pres­sentirem todos que o velho pensador estava no fim dos seus dias. Ele mesmo não se enganava a propósito: em suas cartas e bilhetes, nessa época, costumava chamar-se «o velho doente» e falava freqüentemente sobre a sua morte próxima.
Quanto às suas disposições de alma, ele as revelou em 25 de novembro de 1777, escrevendo a Frederico II da Prússia:
«Mais do que nunca experimento aversão para com a extrema­-unção e para com aqueles que a administram. Entrementes, prostro-me aos pés de V. Majestade e a invoco como consolador meu nesta vida e na outra».
Foi, pois, com esses sentimentos que Voltaire entrou na qua­dra final da sua vida.
2. Doença e «retratação»
Dias depois de chegar a Paris, o filósofo caiu doente e teve que se recolher ao leito. Foi então que entrou em cena o Pe. Gaultier.
Ardendo de zelo sacerdotal, Gaultier tinha o coração confrangido ao presenciar o triunfo da impiedade, como ele mesmo o refere poste­riormente em carta ao arcebispo de Paris:
«Dizia em mim mesmo: … Um homem que blasfemou contra a Re­ligião e que por seus escritos destruiu os bons costumes, é honrado, coroado e quase adorado? … Roguei ao Senhor que impeça os estragos que o Patriarca dos incrédulos podia causar na capital (Paris)».
Como capelão do Hospital dos Incuráveis em Paris, o sacer­dote resolveu destemidamente oferecer os préstimos da sua assis­tência ao «Patriarca dos incrédulos»; escreveu-lhe, pois, uma carta nesse sentido, datada de 20 de fevereiro de 1778. A missiva chegava a Voltaire em boa hora, pois o enfermo já se preocupava muito com os seus funerais e «não queria em hipótese alguma que seu cadáver fosse atirado ao monturo» (expressão do pró­prio Voltaire).
Por conseguinte, logo no dia 21 de fevereiro o doente res­pondia ao Pe. Gaultier em termos muito corteses, mas também muito imprecisos:
«Estou com oitenta anos; comparecerei em breve diante de Deus, Criador de todos os mundos. Se V. S. tem alguma coisa a me comunicar, considerarei como um dever e uma honra receber V. S. em visita, apesar dos sofrimentos que me abatem».
O Pe. Gaultier nesse mesmo dia foi ter com Voltaire, entre­tendo-se três quartos de hora à sua cabeceira, mas em conversa de mera cortesia. Isto, de resto, lhe bastava para que comuni­casse o ocorrido ao Vigário Geral de Paris, Pe. de l’Ecluse, e ao cura de São Sulpício, em cuja paróquia residia Voltaire; como re­sultado desses encontros, ficou deliberado que Voltaire deveria proferir uma retratação formal dos seus erros, caso quisesse receber os sacramentos da Igreja. –
Ora aos 26 de fevereiro escrevia de novo o enfermo ao Pe. Gaultier:
«V. S. me prometeu voltar para ouvir-me; rogo-lhe que venha desde que possível».
Note-se que a expressão «para ouvir-me», na linguagem da época, significava «para me confessar».
No dia seguinte, 27 de fevereiro, era a sobrinha de Voltaire, Mme. Denis, quem escrevia:
«Mme. Denis, sobrinha de M. de Voltaire, pede ao Pe. Gaultier, queira ir visitá-lo; ficar-lhe-á muito grata».
Ainda aos 27/II foi Gaultier procurar o doente, mas não o pode abordar. Voltou então no dia 2 de março; ao avistá-lo, o filósofo agarrou-lhe a mão e pediu-lhe que o ouvisse em confis­são.
A isto respondeu o sacerdote ser necessário antepor uma retratação, conforme as indicações do cura de S. Sulpício. Vol­taire não recusou, redigindo então e assinando o seguinte texto
«Eu, abaixo-assinado, declaro que, estando há quatro dias atacado de vômitos de zangue, na idade de oitenta e quatro anos, não me pude arrastar até a igreja. O Sr. Cura de S. Sulpicio, então, aos seus méritos anteriores quis acrescentar o de me enviar o Pe. Gaultier;
confessei-me a ele. Se Deus dispuser de mim, morrerei na santa Religião Católica, em que nasci, cheio da esperança de que a santa misericórdia de Deus se digne apagar todas as minhas faltas; e, dado que alguma vez tenha escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a Ela».
Foi este o documento mais importante que «Le Figaro». (n° citado) publicou em 1955, dando margem, como se compreende, a debates. Já se conhecia, anteriormente, a existência dessa peça, mas somente por alto, não em seu teor original; fora depositada pessoalmente pelo Pe. Gaultier no cartório do tabelião de Paris.
Ao ler o texto, Gaultier se quedou pensativo: seria sufi­ciente retratação? Voltaire então acrescentou, de próprio punho, a observação:
«O Pe. Gaultier deu-me a saber o seguinte: certas pessoas asseveraram que eu havia mais tarde de protestar contra tudo que eu viesse fazer em perigo de morte. Em vista disto, declaro que nunca tive esse propósito de protestar e que se trata de um gracejo, gracejo hipócrita, aliás, de que têm sido vítimas, já desde muito, vários sábios mais ilus­trados do que eu».
O Pe. Gaultier, hesitando ainda sobre a suficiência do do­cumento, não quis proceder à confissão sacramental sem previamente o apresentar ao arcebispo de Paris, para saber se este o reconheceria ou não. Eis o trecho do relato em que o sacerdote expõe o resultado dessa consulta:
«O Sr. de Voltaire, entregando-me sua retratação, disse-me na pre­sença do Pe. Mignot de Villevieille: ‘Sem dúvida, Sr. Padre, V. S. está autorizado a publicá-la nos jornais; não me oponho a isso’. Respondi­-lhe: ‘Ainda não é tempo de o fazer’. Perguntou-me, a seguir, se eu estava contente. Dei-lhe, a saber que a retratação não me parecia sufi­cientemente ampla e que eu a comunicaria ao Sr. arcebispo de Paris. Foi o que fiz; mas esse virtuoso prelado não a julgou suficiente. Deixei uma cópia da mesma na sua residência de Conflans, onde ele então se achava. Depois fui ter com o pároco de S. Sulpicio para o informar do meu procedimento, dando-lhe uma cópia da retratação, que ele também não aprovou; entreguei-lhe ao mesmo tempo um bilhete de Voltaire, que lhe prometia seiscentas libras para os pobres da sua paróquia».
Diante das duas recusas, o Pe. Gaultier foi logo no dia se­guinte, 3 de março, procurar Voltaire, com a intenção de lhe pedir «retratação menos equívoca e mais explícita». Contudo não pode ser recebido. Repetiu a tentativa várias vezes, mas em vão; Voltaire estava rodeado de «amigos» («D’A…. D… », dizem os textos; seriam D’Alembert, Diderot ?).
Ainda aos 13, 15 e 30 de março o Pe. Gaultier escrevia car­tas em que se queixava de não o quererem receber em casa de Voltaire. Resolvera então aguardar novo chamado da parte deste, de mais a mais que entrementes o enfermo havia recupe­rado a saúde…
3. Redivivo…
Nos tempos subseqüentes à cura, como terá procedido Voltaire?
É o Pe. Gaultier quem o refere:
«Durante dois meses, Voltaire cometeu muita coisa que não me agradou e que eu talvez pudera impedir, se me fora dado entreter-me com ele».
E quais terão sido essas coisas desagradáveis?
O sacerdote relata que Voltaire foi oficialmente recebido na Maçonaria e se prestou às cerimônias de coroação do seu busto no teatro da Comédia Francesa, ato este que tinha nítido caráter de impiedade. Além disto, uma série de cartas do filósofo datadas dessa época revela que a retratação do dia 2 de março ou não foi sincera ou foi, por sua vez, «retratada». Eis um ou outro dos trechos mais significativos (note-se o estilo dissimulado e sa­tírico).
Ao rei Frederico II da Prússia (monarca racionalista, deturpador do Cristianismo) escrevia o doente redivivo, referindo-se às atitudes anticristãs do soberano:
«Eu não perderia a esperança de mandar proferir dentro de um mês o panegírico do Imperador Juliano (chefe da reação pagã contra o Cris­tianismo, de 361 a 363) … Vê-se, Majestade, que a opinião pública acaba por se esclarecer e que os indivíduos que se julgam destinados a obcecá-la não conseguem sempre vazar os olhos do público… (referên­cia aos cristãos, que não haveriam podido prevalecer contra a menta­lidade pagã)! Graças sejam dadas a Vossa Majestade! Vossa Majestade venceu os preconceitos, como derrotou seus outros inimigos… Triunfou da superstição (Cristianismo) e se tornou sustentáculo da liberdade germânica».
A De Vaines, pouco depois, se dirigia Voltaire:
«Os primeiros exemplares da obra ‘Pascal-Condorcet’ que chegarem do estrangeiro, serão para V. S. – Eis dois grandes homens: o primeiro, porém, era fanático, e o segundo um sábio».
Note-se que Pascal era cristão, ao passo que Condorcet professava ímpio racionalismo.
Em 16 de abril, eram as seguintes palavras enviadas ao Conde de Rochefort:
«Creio que o Pe. de Beauregard, pregador de Versailles, tido como jesuíta, me recusaria de bom grado a sepultura – o que é muito injusto, pois o público afirma geralmente que eu nada desejo tão ardentemente como poder enterrá-lo. Sendo assim, parece-me que ele me deveria semelhante cortesia».
Por fim, aos 16 de maio decantava Voltaire:
«Suporto com constância
Minha longa e triste existência,
Sem incorrer no erro da esperança».
Pois bem; já a esta altura do ano o desenlace do «Patriarca da in­credulidade» se aproximava a passos rápidos.
4. Doloroso fim. Conclusões
Por ocasião das mencionadas festas de coroação do seu busto, Voltaire, desejando criar em si vigor e euforia, tomou às ocultas dezoito xícaras de café! Este «tônico» reavivou nele os germens da doença latente. Passou a sofrer de insônia; deram­-lhe então um frasco de calmante na base de ópio; em vez de o ingerir em três ou quatro doses, liquidou-o todo de uma vez – o que mais agravou o seu estado. Os familiares chamaram o Dr. Tronchin para lhe assistir. Voltaire se prostrou no leito, pa­decendo cruciantes dores físicas e entregando-se a uma lingua­gem de injúrias e ofensas (as espantosas circunstâncias dessa situação são descritas pelo Dr. Tronchin nos termos que recor­damos no início desta resposta; o depoimento, porém, não tem merecido o crédito de bons historiadores, pois Tronchin, calvi­nista puritano como era, parece testemunha suspeita).
O fato contudo é que aos 30 de maio Voltaire pediu a pre­sença do Pe. Gaultier… Este sem demora foi ter com o enfêrmo, levando dessa vez o texto de nova retratação, retratação que o Pe. Mignot, sobrinho de Voltaire, examinara, comprome­tendo-se a obter para ela a assinatura de seu tio. A declaração assim rezava:
«Retiro tudo que eu tenha dito, feito ou escrito contra os bons cos­tumes, contra a Religião cristã (na qual tive a felicidade de nascer), contra a adorável pessoa de Jesus Cristo, cuja Divindade me acusam de haver atacado, contra a Sua Igreja, na qual desejo morrer.
Presto agora o desagravo devido em presença do público escandali­zado pelas obras que já há tantos anos vêm sendo publicadas com o meu nome. Este desagravo não é conseqüência de debilitação das minhas faculdades combalidas por adiantada idade, mas é fruto da graça de Jesus Cristo, da qual fui muito indigno; é ela que me faz ver o terrível perigo em que os delírios da minha imaginação me envolveram. Desejo que este desagravo seja publicado em todos os jornais e gazetas da Europa, a fim de que compense, tanto quanto possível, os escândalos que eu quisera destruir à custa mesmo dos poucos dias de vida que me restam.
Dado em Paris, aos 30 de maio de 1778, na presença do Sr. Cura de São Sulpício e do Pe. Gaultiere.
Levando essa fórmula, o Pe. Gaultier e o cura de São Sulpí­cio foram introduzidos no apartamento de Voltaire. Chegando-se perto do leito, o cura pôs-se a falar, mas sem resultado, pois o enfêrmo já não o reconhecia. Gaultier então tentou, por sua vez, estabelecer contato; é ele mesmo quem o narra:
«Voltaire apertou-me as mãos, e deu-me provas de confiança e ami­zade; contudo fiquei muito surpreso quando me disse: ‘Pe. Gaultier, peço-lhe que transmita minhas saudações ao Pe. Gaultier’. Continuou a dizer-me coisas que não faziam sentido. Assim percebi que estava deli­rando, e não lhe falei nem de confissão nem de retratação. Apenas pedi às pessoas presentes que me mandassem chamar de novo logo que voltasse a ter consciência de si. Prometeram-mo. Infelizmente, porém, eu, que esperava rever o doente, no dia seguinte recebi a notícia de que havia falecido três horas depois de o havermos deixado, isto é, no dia 30 de maio ás 11 h da noite.
Se eu suspeitasse de que havia de morrer tão rapidamente, não me teria afastado e haveria empregado todos os esforços para o ajudar a morrer devidamente. Faleceu, portanto, sem sacramentos; queira Deus, não tenha morrido sem conceber o autêntico desejo de os receber e de fazer a retratação de todas as manifestações de impiedade da sua vida» (extraído do relato dirigido pelo Pe. Gaultier ao arcebispo de Paris em 1° de junho de 1778).
Eis o que a documentação segura, incluindo os textos recém­-descobertos, permite dizer a respeito do desenlace de Voltaire.
As conclusões daí decorrentes se poderiam assim formular:
1) Voltaire não se retratou suficientemente nem no dia 2 de março, nem em data posterior. A retratação encontrada re­centemente em Paris foi, sim, assinada por ele e por duas tes­temunhas; contudo os seus dizeres são tão pouco precisos que não pôde no seu tempo (nem pode hoje) ser tida como genuína desdita dos erros e das blasfêmias anteriormente proferidos pelo «Príncipe dos incrédulos». Tal documento, portanto, não basta para se dizer que Voltaire morreu como católico.
2) O filósofo não se confessou nem no dia 2 de março nem no momento de sua morte.
3) Pode-se alimentar a esperança, expressa pelo Pe. Gaultier, de que o moribundo haja ao menos concebido o desejo sin­cero de se converter à fé e de reparar o mal cometido. Somente Deus sabe até que ponto esta esperança corresponde à realidade. Quanto a nós, tendo em vista apenas o desenrolar sensível dos acontecimentos, não possuímos base (seja lícito repetir) para asseverar que Voltaire haja morrido no grêmio da Santa Igreja. – Nessas condições, compreende-se que seu corpo não podia ser sepultado dentro do ritual fúnebre católico; o arcebispo de Paris e o cura de São Sulpício o declararam explicitamente; do seu lado, o bispo de Annecy proibiu, fosse inumado na igreja de Ferney, lugar em que Voltaire vivera muitos anos. Contudo, o Pe. Mignot, sobrinho do defunto, sendo Abade comendatário do mosteiro de Scellière, mandou transferir os despojos para este cenóbio e os fez sepultar em uma capela da Abadia.
Em 1791, a Assembléia Nacional da França decretou que Voltaire era digno das honras que convêm aos grandes vultos da história do gênero humano, e mandou trasladar as suas cinzas para o Panteon de Paris. A cerimônia se deu aos 11 de julho desse ano, havendo sido composto para essa ocasião um hino altamente significativo da mentalidade da época, hino do qual abaixo transcrevemos algumas estrofes (deixamo-las no seu teor original, porque, traduzidas, perderiam muito da sua expressão)




Ilyas Khan – De mulçumano á Católico



Existem muitos muçulmanos que gostariam de renunciar ao islã para abraçar o cristianismo. Entretanto, na maioria dos casos, o medo da perseguição os impede de se converter.
Mesmo assim, existem aqueles que têm a coragem de fazer essa escolha não só na intimidade do coração, mas afirmando-a publicamente no site do jornal National Catholic Register.
É o caso de Ilyas Khan, filantropo britânico, nascido de pais muçulmanos, crescido na Grã-Bretanha, banqueiro de formação, dono do clube de futebol Accrington Stanley e presidente do Leonard Cheshire Disability, a maior organização mundial de assistência às pessoas com necessidades especiais.
“A minha fé conta com a grande contribuição da educação que eu recebi até os meus 4 anos”, revela Ilyas ao entrevistador, que lhe pergunta o que o levou à fé católica. “A minha mãe estava muito doente. Quem me criou naqueles primeiros anos foi a minha avó, que era profundamente católica. Eu não tinha como não me considerar cristão”.
Dos 4 aos 17 anos, porém, Ilyas foi criado e educado como muçulmano. Ele conta: “Na faculdade, a divina providência interveio novamente. Eu fui morar na Netherhall House, que é uma casa de estudantes do Opus Dei”.
O tempo que passou naquela casa de estudantes o aproximou da espiritualidade e da fé católica. Ele mesmo afirma: “Eu não posso dizer que fui induzido à fé inconscientemente. Pelo contrário. Lá pelos 18 ou 19 anos, eu descobriu pessoas como Hans Urs von Balthasar, e comecei a ler muito os textos da biblioteca. Fiquei interessado na teologia, em Santo Agostinho e Orígenes”.
Essas leituras provocaram no jovem Ilyas um movimento interior que já então o empurrava a proclamar as próprias crenças abertamente, mas o medo de causar uma dor profunda nos pais, ainda vivos, o sufocava.
A virada decisiva, lembra Khan, foi um “grau maior de consciência de toda a minha vida e das minhas bases morais”. “O desejo de abandonar o islã era profundo, mas foi o impulso de Cristo que me levou à decisão”. A contribuição fundamental veio da rotina de “viver a vida da Igreja” durante uma estadia em Hong Kong, aos 25 anos. A igreja chinesa de São José “foi o lugar onde eu descobri o catolicismo tradicional. Dos 25 anos em diante, eu não tive mais nenhuma dúvida: eu era católico”.
Mas houve um momento em particular que marcou indelevelmente a fé de Ilyas: uma “visão” durante uma visita à basílica de São Pedro. “Eu estava caminhando pela basílica e me lembro de ter sido ‘arrebatado’ ao ver a Pietá de Michelangelo. Me vieram mil perguntas enquanto eu olhava para aquele rosto de Maria que contempla o seu Filho. E eu disse para mim mesmo: ‘Este é Deus! Não pode não ser Deus’. Para o islã, dizer que Deus se fez homem é uma heresia. Foi ali que me caíram por terra todas as dúvidas. A beleza e a atmosfera em torno daquele espetáculo foram a grande virada”.
O testemunho de Ilyas Khan, por um lado, serve como estímulo para todos aqueles que ainda têm dúvidas ou medos quanto às próprias crenças. Por outro lado, no entanto, a conversão despertou reações negativas, traduzidas em demonstrações de ódio e em ameaças diretas de morte.
Ilyas não tem medo de expressar a sua fé nem de proclamar publicamente a sua beleza. Ele é considerado hoje, na Grã-Bretanha, como “o mais importante neo-converso ao catolicismo”.

Quantos Céus há no Céu?



 
 
 
 
OS POVOS antigos, de fato, dividiam o céu em diversos níveis ou graus, que variavam, – normalmente de três a dez. – Santo Irineu de Lyon (130–202) deixou registrado que determinada escola gnóstica chegava a proclamar a existência de 365 céus (cf. Adversus Haereses 1,24,3). E sabemos que outras linhas filosófico-religiosas chegaram a pregar a existência de 900 céus(!).
São Paulo Apóstolo, – que escrevia inspirado pelo Espírito Santo, – afirmou ter sido arrebatado ao Terceiro Céu, em sua segunda epístola aos coríntios (2Cor12,2), estando assim biblicamente comprovado que existe mais do que um ou dois Céus.

São Tomás de Aquino, por sua vez, tentou também demonstrar a existência de mais que um céu em sua Suma Teológica (Ia,q.68,a.4 e II-IIae,q.175,aa.1-6), baseando-se nas Sagradas Escrituras e também em São João Damasceno, Rábano e Santo Agostinho.

Em especial, o escritor Dante Aligheri parece crer na existência de diversos Céus, propondo um esquema celeste composto por dez Céus em sua obra cássica "A Divina Comédia".
Não obstante o silêncio do Antigo Testamento (que neste estudo só pode ser empregado implícita e precariamente), a tradição judaica especulava a existência de três, cinco, sete ou dez Céus, segundo diversos rabinos. É interessante notar, neste ponto, que no AT, em hebraico, o termo "Céu" é sempre empregado no plural (=Céus, Shamayim), enquanto que a Septuaginta (tradução grega do AT hebraico) e o Novo Testamento usam o termo às vezes no singular (=Céu, Oupxos) e outras vezes no plural (=Céus, Oupavoi).
Um dos principais esquemas hebraicos (que parece bem desligado da influência pagã dos povos vizinhos) propunha a divisão do Céu em três, a saber:
1. O céu "auronos", "atmosférico" ou "aéreo" (o céu das aves, dos ventos e das nuvens) – cf. texto do Salmo 8 (9);

2.
O céu "mesoranios", dito "o firmamento" (o céu das estrelas e dos astros) – cf. textos do Salmo 8 (4) e Deuteronômio 4 (19);

3.
O Céu "Eporanios", "superior" ou "Céu dos céus" (a morada de Deus, e possivelmente o Paraíso) – cf. texto do Salmo 115.
Muito embora alguns Padres gregos e latinos distinguissem, como alguns judeus, o "Terceiro Céu" (lugar onde os justos ressuscitados gozarão da Glória) e o Paraíso (lugar onde os justos descansam, aguardando a ressurreição), boa parte dos Santos Padres (inclusive Santo Agostinho e São Tomás de Aquino) concordam que o Terceiro Céu apontado por São Paulo pode ser identificado com o próprio Paraíso, – em atenção ao que parece declarar o próprio Apóstolo dois versículos depois (em 2Cor 12,4), – tendo em vista que este seria o lugar onde os justos gozariam da felicidade e da companhia de Deus (Gênesis 2-3; Ezequiel 28,13-15; Mateus 25,46; Lucas 23,43), ou seja, onde se constituía, por excelência, a "Morada dos bem-aventurados junto a Deus".
Mesmo assim, não é possível determinar com certeza absoluta se o cristão São Paulo, nesta passagem, estava fazendo uso do esquema judaico de três ou de sete Céus, já que este último esquema tradicionalmente situava o Paraíso no Terceiro Céu, tornando-se compatível com o versículo 4. A propósito, sendo São Paulo um ex-fariseu (cf. Atos 23,6), não seria de se estranhar que estivesse empregando o esquema de sete Céus, pois era de fato o mais difundido entre os judeus do seu tempo, compreendendo cada céu como um diferente grau de glória experimentado pelos bem-aventurados.

São Paulo Apóstolo por
Bartolomeo Montagna
Por outro lado, se Paulo estiver aqui se referindo ao esquema de três céus, estará afirmando claramente ter sido arrebatado ao "mais alto dos Céus", isto é, à própria Morada de Deus e dos anjos e justos bem-aventurados (o que, salvo melhor interpretação, parece corresponder melhor ao teor de 2Coríntios 12,4, que fala de 'Paraíso' e, ao mesmo tempo, de 'palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir'; de outra forma, o arrebatamento de São Paulo ainda o situaria muito distante de Deus).
Convém recordar que os esquemas que adotavam ou adotam mais que três céus geralmente estavam ou estão impregnados de cultura pagã, gnóstica e/ou esotérica. O próprio Santo Irineu, acima citado, registra uma outra doutrina gnóstica que dividia o Céu em sete e possuía uma estranhíssima "explicação" (situando, contudo, o Paraíso no quarto Céu):
"Dizem que o Demiurgo se tornou Pai e Deus dos seres exteriores ao Pleroma, visto que era o Autor de todos os seres psíquicos e hílicos. Com efeito, ele separou uma da outra estas duas substâncias confusas e de incorporais fê-las corporais; fez os seres celestes e terrestres e tornou-se Demiurgo dos psíquicos e dos hílicos, dos da direita e dos da esquerda, dos leves e dos pesados, dos que vão para o alto e dos que vão para baixo. Fez sete céus sobre os quais -dizem - está o Demiurgo. É por isso que o chamam Hebdômada e a Mãe Acamot denominam Ogdôada, porque conserva o número da primitiva e primária Ogdôada do Pleroma. Segundo eles os sete céus são de natureza inteligente: supõem que sejam Anjos e o próprio Demiurgo um Anjo semelhante a um Deus, assim como o paraíso situado sobre o terceiro céu é, pela sua virtude, o quarto Arcanjo e que Adão recebeu dele alguma coisa quando esteve ali" (Contra as Heresias 1,5,2).
No caso dos judeus em específico, verifica-se que a tradição dos "sete Céus" encontra-se apoiada por escritos apócrifos, como o Livro de Henoc Eslavo, o Apocalipse de Baruc e o Testamento dos Doze Patriarcas (que foram, entretanto, rejeitados pelo Sínodo de Jâmnia, o qual definiu o cânon bíblico dos fariseus no século I dC), além de outras fontes que podem muito provavelmente ter sofrido influência da cultura pagã persa e babilônica, – que professavam originalmente a crença nos sete Céus, – durante o período de Cativeiro.
Talvez em razão da "antiguidade" dessa tradição judaica, acabou sendo "importada" ao islamismo (v. Alcorão, Sura 41,12) e para alguns círculos cristãos, como o de Santo Irineu, que em sua obra "Demonstração da Pregação Apostólica" escreveu, no capítulo 9:
Este mundo é rodeado por sete Céus, nos quais habitam inúmeras potências, anjos e arcanjos, que asseguram um culto a Deus todo-poderoso e criador do Universo. Não porque tenha necessidade deles, mas para que não estejam, ao menos, sem fazer nada, como inúteis e malditos. Por isso, é múltipla a presença interior do Espírito de Deus e o profeta Isaías a enumera em sete formas de ministério, que descansaram no Filho de Deus, a saber, o Verbo, em sua vinda humana. De fato, disse: 'Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, [Espírito de ciência] e piedade; lhe conquistará o Espírito do temor de Deus' (Is. 11,2-3).

O primeiro Céu, pois, a partir do alto, que contém os restantes, é a sabedoria; o segundo é a inteligência; o terceiro é o conselho; o quarto, em linha descendente, é a fortaleza; o quinto é a ciência; o sexto é a piedade; o sétimo, que corresponde ao nosso firmamento, está repleto de temor deste Espírito que ilumina os céus. Daí Moisés adotar o modelo do candelabro de sete braços, que arde ininterruptamente no Santuário. De fato, organizou o culto segundo este esquema celeste, com o que lhe havia apontado o Verbo: 'Te ajustarás ao modelo que te foi mostrado na montanha' (Ex. 25,40)."
Porém, o que faz aqui Santo Ireneu é simplesmente interpretar alegoricamente o conceito de "Sete Céus" da tradição farisaica, moldando-o ao conceito judaico-cristão dos "Sete Dons do Espírito Santo", atribuindo para cada Céu um dom. Portanto, mais que afirmar a existência real de Sete Céus, parece que Irineu quer inculcar os dons do Espírito Divino. Isto fica ainda mais patente quando descobrimos como a "doutrina dos sete Céus" do judaísmo veio a se desenvolver posteriormente. Abaixo, um pequeno reflexo extraído do "Livro do Esplendor", o qual é uma espécie de resumo da Cabala judaica:
E Deus criou sete Céus acima e sete terras abaixo, sete oceanos e sete rios, sete dias e sete semanas, sete anos e sete vezes sete anos, e os sete mil anos de duração do mundo. E cada um dos sete céus acima tem suas estrelas, seus corpos astrais e seus sóis. Cada um tem sua hierarquia, com poder de executar a vontade soberana. E os que servem são diferentes em cada céu: em alguns, os servos têm seis asas; em outros, quatro asas. Em alguns, têm seis faces; em outros, duas faces. Alguns são feitos de fogos; alguns de água; e alguns de ar. E todos os céus estão colocados uns dentro de outros, como as folhas da cebola. Todos obedecem a palavra do Criador, pois acima de todos está Deus - bendito seja Ele!

E cada um dos sete céus tem suas estrelas fixas e suas estrelas móveis. Levaria cem anos para percorrer andando cada céu. E a altura de cada um é cinco vezes maior que sua superfície; e a distância que separa um céu de outro levaria quinhentos anos para percorrê-la. E por cima de todos eles encontra-se o céu Araboth, o mais alto, cuja superfície levaria mil e quinhentos anos para percorrê-la e sua altura exatamente outro tanto. A luz do Araboth é tão forte que ilumina todos os céus. Acima do Araboth encontra-se o céu da Fera Sagrada. Uma garra da pata da Fera Sagrada é tão grande quanto sete vezes a distância que existe entre a terra e o céu. É como um cristal ígneo. Aqui se encontram as legiões da direita e da esquerda.

Em cada céu existe um governante, que governa a terra e o mundo. Apenas a Terra Santa não é governada por qualquer destes governantes, mas apenas pelo próprio Deus. E o poder que emana de cada um deles é atraído do céu para a terra, pois cada governante está investido a partir do alto com o poder que é dado ao mundo de baixo. No meio de todos os céus existe uma porta chamada Gabillon, sob a qual se encontram setenta outras portas, protegidas por setenta chefes, de onde sai um raio de luz equivalente a duas mil lâmpadas.

Nosso mundo forma o centro do mundo celeste. É cercado por portas que conduzem aos reinos superiores. Em cada porta se encontram legiões de anjos. Estes anjos são alimentados por uma imensa árvore invisível, já que sua luz é oculta pelos ramos. Este mundo pode exercer seu poder apenas quando as sombras da árvore o cobrem e quando todas as portas que se comunicam com o mundo superior estão fechadas. Quando os sinais de louvor se elevam a partir da garganta do homem, duas portas se abrem, uma ao norte e outra ao sul, e a chama celestial desce até a terra e envia sua luz em seis direções. Se todas as portas do mundo não estivessem protegidas pelos anjos, os demônios teriam entrado e o teriam destruído há muito tempo. Porém, quando se elevam ao céu os hinos de louvor, o próprio Deus desce até a terra e fortalece o mundo com sua divina presença.

Quando Deus quis criar todas as coisas, Ele começou criando algo que era por sua vez macho e fêmea; e a estes, por sua vez, Ele os fez dependentes de alguma outra forma que, por sua vez, é macho e fêmea. E a sabedoria (chochma), que é a primeira sephira depois da coroa (keter), foi manifestada pelo Criador e brilha a forma de ambos, macho e fêmea. E quando a sabedoria se tornou manifesta, produziu a inteligência (binah). E novamente temos macho e fêmea: a sabedoria é o pai; a inteligência, a mãe; e estes são os dois pratos da balança. Por causa deles, tudo se manifesta na forma de macho e fêmea. Sem a sabedoria não haveria princípio algum, já que a sabedoria é o pai dos pais, a origem de todas as coisas. Desta união nasce a fé e se estende ao mundo. A binah se produz pelas duas letras do nome de Deus: Yod, Heh.

Assim, a binah é realmente Ben-Yah, Filho de Deus, o qual é a perfeição de tudo o que existe. Quando o Pai, a Mãe e o Filho (que é a misericórdia, chesed) estão juntos, ocorre a síntese perfeita. E quando eles estão juntos, a filha (que é o rigor, gebourah) está também com eles. Porém, sabeis que isto é o resumo de tudo o que ouvistes: que tudo no mundo inferior foi feito à imagem do mundo superior. Tudo o que existe no mundo superior nos parece aqui como que uma pintura. Tudo é uno e a mesma coisa."
(Sepher-ho Zohar)
Como se vê, há aqui uma forte tendência para a gnose e para o esoterismo, afastando-se radicalmente das Sagradas Escrituras e denunciando, em especial, sua total incompatibilidade com a fé cristã.
Considerando tudo isto, concluímos que embora possamos falar de "Céu" no plural (indicando a existência de vários Céus) ou no singular (para apontar o Céu inteiro, incluindo suas prováveis divisões), não existem fontes seguras ou de reconhecida autoridade – apostólica ou eclesiástica – que nos obriguem ou nos autorizem a defender a existência dos "sete Céus" ou de qualquer outro número que ultrapasse o três. – Embora, evidentemente, não nos sejam dados a conhecer todos os mistérios daquilo que já nos Céus, como são e quantos são, assim como não podemos ainda conhecer perenemente toda a Glória divina.

Quem foi São Cipriano, o feiticeiro?



Em síntese: A figura de São Cipriano mago é lendária. Deve ter sido criada no século IV e na Ásia Menor para ilustrar um tema caro aos antigos: a do feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte a Cristo. A figura de Cipriano mago a lenda associou a da Justina, virgem a mártir, também para ilustrar um tema muito estimado pelos cristãos: a da virgem que supera as armadilhas do homem que a quer seduzir. O autor da lenda deu ao mago convertido o nome de Cipriano, que era a de famoso bispo de Cartago martirizado em 258.  O recurso a este nome obteve mais estima e crédito para a lenda, que na Idade Média foi corroborada pela introdução de S. Cipriano e S. Justina no calendário litúrgico (aos 26/09). O “Livro poderoso de S. Cipriano” tem seu núcleo já no século IV, quando se difundiam as “preces de Cipriano”, utilizadas quase como fórmulas mágicas.
Popularmente fala-se muito do um São Cipriano, mago, que teria deixado um “Livro Poderoso”: “lido para a frente, lido para trás”, esse livro provocaria fenômenos estranhos: as vacas parariam de dar leite, os animais adoeceriam, os homens seriam prejudicados. Daí as perguntas: quem foi S. Cipriano mago? Quando viveu? Que Livro Poderoso deixou?  É o que vamos examinar.
1.  São Cipriano e seu livro
A história conhece um S. Cipriano que foi bispo do Cartago, no Norte da África entre 249 e 258. Deixou numerosos escritos teológicos, hoje em dia editados, que nada tem a ver com magia ou ocultismo. Gozou de grande fama e estima após a sua morte, pois foi um mártir heróico, que marcou a Igreja do seu tempo. A sua festa é celebrada a 16 do setembro.
Aos 26 de setembro o Martirológio Romano (= Catálogo de Mártires) assinalava a festa dos mártires S. Cipriano e S. Justina. A história dessas figuras é narrada em grego, latim, sírio, árabe, etíope, copta e pálio-slavo – o que bem mostra quanto os antigos valorizavam esses dois personagens. Essas várias versões não coincidem sempre entre si; ao contrário, divergem por vezes. A mais antiga delas, a grega, refere o seguinte sob o título abaixo:
1.1. “Conversão de São Cipriano”
No começo do século IV, em Antioquia da Síria o diácono Prailio pregava as verdades da fé, quando uma jovem chamada Justa o ouviu a partir de uma janela e ficou impressionada. Ela contou o fato à sua mãe Cledônia, que, por sua vez, o relatou a seu marido Edésio. A família ficou perplexa, sem saber a que faria; todavia na noite seguinte apareceu-lhes Jesus Cristo com seus anjos e lhes disse: “Vinde a mim e eu vos darei o reino dos céus”.  Em consequência, chegado o dia, pai e mãe levaram a filha ao diácono Prailio, que os apresentou ao bispo Optato. Este os batizou e ordenou sacerdote Edésio, que era pontífice de um culto pagão. Edésio morreu dezoito meses depois; Justa entrementes frequentava assiduamente a igreja, onde um jovem, de nome Aglaidas, a via muitas vezes passar e se apaixonou por ela. Pediu-a em casamento; mas Justa recusou-se, dizendo que queria permanecer virgem. Então Aglaidas, acompanhado do amigos, colocou-se no sou caminho, vedando-lhe a passagem; queria raptá-la. Mas as mulheres que acompanhavam Justa, puseram-se a gritar tanto que os servidores e vizinhos acorreram, pondo os agressores em fuga.
Aglaidas não desistiu do seu intento. Sabia que existia um mago poderoso chamado Cipriano; foi procurá-lo, prometendo-lhe dois talentos (grande quantia), caso conquistasse o coração de Justa para o seu pretendente. Cipriano então evocou um demônio… Este lhe entregou um veneno, que devia ser espalhado em torno da casa da moça. Quando esta se levantou para rezar, sentiu o ataque do Maligno; mas logo fez o sinal da Cruz sobre si e sobre a casa e orou fervorosamente ao Senhor. A vista disto, o demônio comunicou a Cipriano que a tentativa fora malograda. 0 mago, querendo salvar sua fama, chamou outro demônio, mais poderoso; também este foi vencido, mas não quis revelar a Cipriano o artifício que o desbaratara.
O mago, ainda mais ardoroso, evocou o pai dos demônios, que lhe apareceu, prometendo-lhe entregar a moça dentro de seis dias. Apresentou-se o tentador a Justa sob a aparência de uma jovem… Esta declarou a Justa que Jesus Cristo a enviara para levar com Justa uma vida perfeita. E acrescentou:
“Que recompensa esperas receber por guardares a virgindade? Vejo-te esgotada pelos jejuns”. Ao que Justa respondeu: “O fardo é leve, mas a recompensa é enorme”. Prosseguiu o Maligno ainda disfarçado: “No começo Deus abençoou Adão e Eva, dizendo-lhes:
“Crescei, multiplicai-vos, e enchei a terra’. Parece-me que, se perseverarmos na virgindade, desprezaremos a palavra do Deus e seremos tratadas como rebeldes no dia do juízo final’. Justa sentiu-se abalada por esta observação, mas recuperou-se e, fazendo o sinal da cruz com oração, soprou sobre o demônio, que fugiu.
Cipriano então pediu ao Maligno que lhe dissesse por que e como fora derrotado. O demônio só consentiu em falar depois que Cipriano lhe jurou que permaneceria sempre fiel ao demônio. Confessou, pois, que o poder do sinal do Crucificado ultrapassava o poder das trevas. Isto enfureceu Cipriano, que tratou o diabo de mentiroso; mandou-lhe que se retirasse; quando o Maligno quis pular sobre Cipriano para sufocá-lo, Cipriano o repeliu fazendo o sinal da Cruz. A seguir, foi procurar o bispo Antímio, a quem pediu que o instruísse na fé cristã e, ao voltar para casa, destruiu os seus ídolos.
No dia seguinte, que era Sábado Santo, Cipriano voltou à igreja, onde ouviu leituras sagradas e a homilia do bispo. No momento em que o diácono Astério convidava os catecumenos para se retirar, Cipriano ficou na igreja para grande surpresa do diácono, que insistiu dizendo: “Cipriano, levanta-te e sai”.  Replicou Cipriano: “Tornei-me servidor de Cristo e tu me expulsas!” Então o bispo, informado do caso, batizou Cipriano. Oito dias depois, deu-lhe o ministério do leitor; vinte e cinco dias mais tarde, fê-lo ostiário e subdiácono; cinquenta dias depois, diácono e, finalmente, no fim do ano, presbítero. Passados dezesseis anos, Antímio estava para morrer e obteve que Cipriano lhe sucedesse na função episcopal. Feito Bispo, Cipriano terá promovido a jovem Justa ao cargo do diaconisa; trocou seu nome pelo de Justina e a fez Superiora de uma comunidade monástica. O resto da vida do Cipriano terá sido dedicado a combater as heresias.
A narração da Conversão do S. Cipriano tem na literatura antiga dois complementos, do índole grotesca, como são a “Confissão do Cipriano” e “Paixão do Cipriano”. Eis o seu conteúdo:

1.2   A “Confissão de Cipriano”
A “Confissão do Cipriano” é uma ampliação infeliz da “Conversão”. Nosso relato Cipriano toma a palavra para explicar seu relacionamento com o domínio, as feitiçarias e os encantamentos que praticava. O autor da narração acumula as histórias de artes mágicas e às vezes cai no ridículo; assim, por exemplo, refere que Aglaides tomou a forma de um pássaro que se colocou sobre um telhado a fim de espreitar Justina; todavia, logo que conseguiu ver a moça, perdeu a qualidade de pássaro (que ele adquirira por feitiçaria); retomou a sua condição de homem e experimentou muita dificuldade para descer do telhado.

1.3.  A “Paixão de Cipriano”
Esta narração responde a necessidade de terminar os relatos anteriores. o autor recorreu a traços comuns de narrações anteriores. Refere, por exemplo, que Cipriano e Justina foram presos por ordem do Conde Eutólmio e levados para Damasco. Após um interrogatório, Cipriano foi dilacerado por unhas do ferro, enquanto Justina era chicoteada ferozmente. Contudo permaneceram insensíveis. Levados de novo ao tribunal, foram condenados a morrer numa caldeira de óleo fervente; este, porém, se tornou para eles ocasião de um banho reconfortador; ao verificá-lo, um sacerdote pagão acusou-os de magia e aproximou-se do fogo da caldeira, que imediatamente o devorou. Finalmente o juiz terá enviado os dois mártires para Nicomédia, onde residia o Imperador Dioclociano. Este mandou que fossem decapitados; o carrasco executou a sentença juntando a Cipriano e Justina um certo Teoctisto, que passava por perto. Os seus cadáveres foram expostos às feras, que os deixaram intatos. Seis dias depois, marinheiros cristãos levaram os corpos para Roma, onde uma certa Rufina lhes deu honrosa sepultura.
Eis o que se narra a respeito do S. Cipriano mago e mártir. Vejamos que a credibilidade destes relatos.
2.  Ponderações críticas
1. Tais narrações são, pelos historiadores modernos, unanimemente tidas como lendárias. Na verdade, deve-se observar que:
a) nas listas dos bispos de Antioquia não só encontram nem Optato. nem Antímio, nem Cipriano.
b)
O culto dos mártires sempre esteve ligado aos túmulos respectivos. Ora não se conhece na antiguidade ou na arqueologia e sepulcro do S. Cipriano, virgem e mártir. O autor da “Paixão de Cipriano”, para fugir à objeção de que não há sepultura de S. Cipriano em Antioquia, imaginou que o corpo de herói tenha sido trasladado para Roma; todavia em Roma não se conhecia o túmulo de S. Cipriano na antiguidade. Somente na Idade Média julgaram os cristãos ter encontrado as relíquias de Cipriano e Justina em Roma, perto do Batistério de Latrão; foi então que a festa dos dois “mártires” foi introduzida na Liturgia de Roma.

2. Negada a historicidade dos relatos, pergunta-se: por que e como tiveram origem?
Tais narrações retomam dois temas caros aos antigos cristãos: o do feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte, e o da virgem que triunfa do homem que a quer seduzir. Os antigos se compraziam em ouvir ou ler relatos desse tipo; daí a confecção da estória de Cipriano mago convertido, e Justina. virgem vitoriosa. Essa estima da temática fez que a lenda encontrasse logo grande aceitação, de mais a mais que utilizava nomes famosos (misturados anacronicamente num só relato): Optato era um bispo do Norte da África, citado nas Atas das Santas Mártires Perpétuas e Felicidade; Antímio era um bispo mártir da Nicomédia; Cipriano foi um grande bispa do Cartago (anterior aos outros bispos citados); Edésio foi um filósofo. Todos esses personagens eram famosos em Antioquia no século IV (época em que se julga tenha tido origem a “Conversão do Cipriano”). Também Justa e  Justina eram nomes assaz difundidos na antiguidade. Os outros nomes dos relatos encontram-se todos em obras da literatura dos primeiros séculos.historia_da_igreja
Muito contribuiu para dar valor a estória em pauta a confusão feita do Cipriano mago com S. Cipriano, bispo do Cartago, caro à Igreja antiga. Houve relatos, hoje perdidos, que tentavam fundir a “vida de Cipriano mago” com a história real do S. Cipriano do Cartago, como se este tivesse sido feiticeiro. S. Gregório, bispo do Nazianzo, na Ásia Menor, proferiu um sermão em 379, no qual se servia das narrações espúrias relativas a S. Cipriano, bispo do Cartago e mago; pouco depois, o poeta latino Prudêncio se deixou levar pela mesma ilusão.
Aos poucos o crédito dado a essas versões todas fez que os nomes de Cipriano e Justina constassem dos Martirológios antigos a partir do século IV. A contar dessa época foram também aparecendo “Preces do Cipriano”, utilizadas como fórmulas quase mágicas; deste núcleo fez-se aos poucos o “Livro Poderoso do S. Cipriano mago”, que nada tem que ver com dados históricos nem com a fé católica. Se algum efeito extraordinário ocorre por ocasião da leitura do “Livro Poderoso de S. Cipriano”, isto se deve unica¬mente ao poder da sugestão; quem acredita que tal Livro produz efeitas portentosos, predispõe-se a “vê-los”, “experimentá-los” ou mesmo “produzi-los”…
Em conclusão: 1) distinga-se de S. Cipriano. bispo do Cartago (*258), grande escritor cristão, o lendário personagem dito S. Cipriano mago; 2) a magia e a feitiçaria não se coadunam com a mensagem cristã, que recorre à oração em atitude humilde e confiante, sem fórmulas ou receitas “todo-poderosas”.
***
A propósito ver “Vie dus Saints et Bienheureux” par les RR. PP. Bénédictins de Paris, tome IX, Septembre, pp. 327-338 e 529-534.
1
Na Igreja antiga, os catecúmenos eram as pessoas que se preparavam para  o Batismo, só lhes era lícito participar da Liturgia da Palavra. – O relato apresenta aqui certa incoerência, pois no Sábado Santo é que se costumava ministrar o Batismo aos catecúmenos.
D. Estevão Bettencourt, PR n.332, 1990, p. 24


Quem é São Cipriano, Mago?